Lugares do Olhar #3 e #4 – David Perlov

setembro 26, 2011


Na esteira da mostra retrospectiva “Epifanias do Cotidiano”, organizada por Ilana Feldman e realizada no Rio de Janeiro e em São Paulo em março de 2011, a Mostravídeo Itaú Cultural apresenta em BH e em Curitiba o filme Diário 1973-1983, do cineasta David Perlov. Nascido e criado no Brasil, Perlov sempre cultivou uma relação íntima com o país, que surge como uma referência freqüente nesses seus ensaios sobre o cotidiano, a família e o cenário político de Israel, onde passou a maior parte de sua vida. Para além da cronologia dos fatos históricos, contudo, a força dos filmes de Perlov reside na beleza que emprestam ao cotidiano, enredando-nos num ritmo familiar de pequenos acontecimentos e revelações autobiográficas.

Obs.:A exibição do filme Diários 1973-1983 será dividida em duas sessões: a primeira sessão do mês apresentará as partes 1, 2 e 3 (165 min) e a segunda sessão apresentará as partes 4, 5 e 6 (165 min). Ainda que a relação cronológica entre as partes seja importante, é possível ver os episódios separadamente ou acompanhar os episódios posteriores sem ter visto os que os precederam.

quarta 21 às 19h30 *
*
nesta sessão serão exibidos osDiários 1, 2 e 3

quarta 28 às 19h30 *
*
nesta sessão serão exibidos os Diários 4, 5 e 6

Diário 1973-1983
David Perlov, Israel/Inglaterra, 330 min, 1973/1983, DVD
Em maio de 1973, David Perlov compra uma câmera 16mm. O cinema comercial não o interessa mais. Durante dez anos ele filmará, dia após dia, seu cotidiano, sua família, seus amigos, seus alunos e suas viagens, sobretudo para a França e o Brasil, onde nasceu e para onde retorna 20 anos depois. Dividido em seis capítulos de 55 minutos cada, entre encontros com Nathan Zach, Claude Lanzaman, Izac Stern, Joris Ivens e Klaus Kinsky, acompanhamos os eventos dramáticos do país que Perlov escolheu como lar e que se dedicou, através de sua janela, a observar. Não se trata apenas de um diário pessoal, mas de uma obra militante por uma nova maneira de olhar o mundo, em que o privado se funde ao político, o cotidiano ao poético, e a turbulenta história de Israel se mistura à fascinante jornada pessoal do cineasta.


Lugares do olhar # 2 – Ermanno Olmi

setembro 14, 2011

Na sessão Histórias do Cinema, a Mostravídeo de setembro apresenta o segundo longa-metragem do diretor italiano Ermanno Olmi. Menos conhecido que outros diretores italianos também marcados pelo realismo do pós-guerra, Olmi sintetizou em seus filmes a preocupação social e o refinamento estético que definiram boa parte das ambições desse novo cinema. Longe de quaisquer afetações ou maneirismos formais, contudo, os filmes do diretor são marcados pela precisão e pela simplicidade calorosa com que acolhem seus personagens, construindo uma relação de intimidade e cumplicidade entre eles e o espectador. No seu segundo filme (Il Posto), Olmi constrói uma narrativa que, embora não abra mão das palavras, parece sustentar-se de forma especial num delicado jogo de gestos e, sobretudo, de olhares.

 quarta 14 às 19h30

Il Posto | O trabalho
Ermanno Olmi, Itália, 1961, 93′
Domenico (Sandro Panseri) vai a Milão para fazer um teste de emprego, onde conhece a jovem Antonietta (Loredana Detto). Aos poucos, eles deixam a serenidade da adolescência para entrar no mundo da vida adulta e do trabalho.


Lugares do Olhar #1 – Aloysio Raulino

setembro 7, 2011


Um dos mais importantes diretores de fotografia do cinema brasileiro (Braços Cruzados, Máquinas Paradas, de Roberto Gervitz e Sérgio Toledo, Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, dentre outros), Aloysio Raulino construiu uma carreira marcante também na direção de filmes, boa parte deles tematizando as condições de vida de trabalhadores, migrantes e excluídos sociais. Ainda que centrados fortemente no potencial expressivo das imagens, seus filmes não se rendem jamais a uma contemplação distanciada e desengajada do mundo. Neles, para além da força poética dos registros, a câmera deixa sempre impressa uma margem de conflito, uma área de disputa e de tensão entre aqueles que olham e aqueles que são olhados.

quarta 7 às 19h30 *

* esta sessão será seguida de debate com o realizador Aloysio Raulino, o curador João Dumans e o pesquisador de cinema Ewerton Belico.

Jardim Nova Bahia
Aloysio Raulino, 1971, Brasil, 15 min, 35mm
Depoimento prestado por Deutrudes Carlos da Rocha, baiano de 24 anos, lavador de automóveis, que vive em São Paulo. Em sua primeira parte, o depoimento de Deutrudes é alternado com aspectos de outros baianos da sua mesma condição. Na segunda parte, ele próprio empunha a câmara, exprimindo-se livremente, sem qualquer interferência do realizador.

O Tigre e a Gazela
Aloysio Raulino, 1976, Brasil, 14 min, 35mm
As fisionomias, os gestos e as falas de mendigos, pedintes, loucos e foliões que passam pelas ruas de São Paulo. Os sons e imagens são ilustrados com extratos de Frantz Fanon.

Porto de Santos
Aloysio Raulino, 1978, 19 min, 35mm
Descrição poética do Porto de Santos e seus trabalhadores – doqueiros, prostitutas, marinheiros, um capoeirista –, provavelmente envolvidos numa paralisação grevista.

Celeste
Aloysio Raulino, Brasil, 2009, 5 min, DVD
Contra um céu adverso, Celeste alça seu vôo. Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu.


Deslocamentos e caronas #3 – Cinema contemporâneo

agosto 15, 2011

Nas sessões de Cinema Contemporâneo, são exibidos filmes de estreia de jovens diretores brasileiros, cujos projetos foram realizados em empreitadas de recursos financeiros modestos, mas com autênticas pretensões poéticas. Obras em que a vivência do fazer cinematográfico se confunde com a experiência da vida e da viagem e cuja espontaneidade e emergência permitem que comecemos a colher por aqui as novas histórias possíveis de um cinema digital.

A Fuga da Mulher Gorila

Felipe Bragança e Marina Meliande, Brasil, 2009, 82 min

Longa-metragem de estreia dos jovens cineastas Felipe Bragança e Marina Meliande, o filme foi rodado numa viagem de oito dias e conta a história de duas irmãs que atravessam as estradas do Rio de Janeiro em uma Kombi, para apresentar uma atração circense de efeitos óticos: o famoso truque da Mulher Gorila.

Veja o trailer:

Belo Horizonte | quarta 17 às 19h30

Curitiba | quinta 18 às 19h30


Deslocamentos e caronas #2 – Outras Narrativas

agosto 9, 2011

Documentário que busca abordagens e registros distintos da trivialidade das entrevistas. O filme descreve uma região de fronteiras nacionais, e a própria noção de fronteira se esvai a cada deslocamento dos personagens e da câmera. A vida cotidiana e a narrativa documental se sobrepõem aqui a qualquer limite de território.

quarta 10 às 19h30

Terras Maya Da-Rin, Brasil 2009, 75 min (espanhol)

O primeiro longa-metragem da diretora Maya Da-Rin acompanha o dia a dia de moradores das cidades gêmeas de Letícia e Tabatinga, que fazem a fronteira tríplice entre Brasil, Colômbia e Peru e formam uma ilha urbana cercada pela imensa floresta amazônica. A densa vegetação e o fluxo constante de pessoas de origens distintas chegam, muitas vezes, a encobrir as delimitações territoriais, fazendo o conceito de fronteira deixar de existir.


Deslocamentos e caronas #1 – Outras Narrativas

agosto 1, 2011

Uma forma trivial de olhar para os filmes brasileiros da mostra deste mês seria encarando todos eles como road movies. O dispositivo narrativo do deslocamento territorial dos personagens (e da equipe) explica o sentido das tramas e das viagens, mas não o sentido que este conjunto de filmes promove como possibilidades novas de organização da produção, de eleição de contextos dramáticos e de linguagens.

Colocar o cinema na estrada numa espécie de ação entre amigos, dispor das técnicas novas da diversificação do ponto de vista, eleger territórios inalienáveis e fazer o filme surgir a qualquer custo como destino final da jornada. No meio desta empreitada, o cinema videográfico dá sempre carona a alguém que completa o jogo de espelhos e motiva uma outra viagem: um estranho, um louco afásico, a memória de um amigo morto, uma equipe de filmagem, o espectador, todos embarcam juntos nestas histórias narradas em câmeras digitais.

Outras Narrativas

Nesta sessão, é apresentada uma produção que se constrói a partir de inúmeros olhares, tomando-os como o seu objeto próprio e original. Tecendo imagens amadoras geradas numa viagem de navio, o documentário permite espiar a relação das pessoas com as câmeras de vídeo amadoras e com o registro audiovisual de suas próprias memórias, provocando uma percepção crítica acerca da relação entre a experiência vivida e as imagens.

Belo Horizonte | quarta 3 às 19h30

Curitiba | quinta 4 às 19h30

Continue lendo »


Lembrar e esquecer com o cinema #4 – Carlos Adriano

julho 26, 2011

Nos dias de hoje, convencionou-se deduzir a pluralidade de formas do cinema a partir de dicotomias bastante simples, como aquelas que opõem ou misturam o documentário e a ficção, o filme de arte e o comercial, o clássico e o moderno. Mas há filmes que ignoram de tal forma essas distinções que acabam por nos remeter a uma espécie de zona insituável da história do cinema, a um território primitivo e  pouco explorado onde misturam-se de maneira poética e indiscriminada restos de imagens, invenções, engenhos ópticos, fotografias, depoimentos, citações, acidentes, memórias. “Santos Dumont: Pré-Cineasta?”, de Carlos Adriano, é um exemplo notável desse cinema “sem pátria”, que se realiza ao mesmo tempo como experimento científico e rito selvagem, como tratado teórico e declaração de amor.

Santos Dumont: Pré-Cineasta?
Carlos Adriano, Brasil, 2010, 63 min
Este documentário parte da descoberta e restauração de um raro e desconhecido carretel de fotografias reproduzidas de um filme mutoscópio, produzido em 1901, em Londres, sobre Santos Dumont (1873-1932). A obra aborda aspectos históricos e artísticos dos primórdios do cinema (pré-cinema, cinema de atrações) e do cinema de reapropriação de arquivo (found footage, filme de reciclagem), por meio de entrevistas, documentos, metáforas visuais e da articulação própria de um ensaio poético.

Imagens: Acervo do Museu Paulista da USP, coleção Santos Dumont/divulgação filme Santos Dumont: Pré Cineasta?

BH: quarta 27  de junho às  19h30, Palácio das Artes
Curitiba: quinta 28  de junho às  19h30, Paço da Liberdade

Sessão comentada com Carlos Adriano e Eduardo de Jesus.

—-

Confira aqui textos e críticas publicados sobre o filme:

http://www.faroisdocinema.com.br/?p=853
http://www.revistacinetica.com.br/santosdumontpre.htm
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110406/not_imp702229,0.php
http://www.revistacinetica.com.br/dasruinas.htm
http://carmattos.com/2010/10/01/santos-dumont-pre-cineasta/
http://www.cinequanon.art.br/gramado_detalhe.php?id=798&id_festival=114