Em Curitiba

MOSTRAVÍDEO

NOVEMBRO

sesc paraná – paço da liberdade
praça generoso marques, 189 – centro | fone 41 3234 4200 | sescpr.com.br
quintas 3, 10, 17  ás 19h30

cinemateca de curitiba
rua carlos cavalcanti, 1174 – são francisco | fone 41 3321 3252
terça 29 às 19h30
 

“Não recomendado a menores de 14 anos”
[ENTRADA FRANCA – ingressos distribuídos com uma hora de antecedência]

[ingressos distribuídos com uma hora de antecedência]

Coleções, inventários e invenções de mundo

Colecionar significa, num certo sentido, retirar as coisas do mundo para reintegrá-las a uma nova ordem. Que essa seja uma definição possível também para o cinema não é gratuito, nem é de se surpreender que ao longo de sua história tantos realizadores tenham se deixado fascinar pelo poder da câmera de capturar e inventariar a realidade. Para além da acumulação desinteressada e gratuita, contudo, sem outra finalidade que não a satisfação do próprio colecionador, o cinema retira as coisas do mundo para devolvê-las necessariamente sob uma nova forma. É graças a esse recuo poético, afinal, que somos levados a pensá-las e enxergá-las de outras maneiras.

Entre registros plásticos, reminiscências pessoais e coleções de objetos, gestos e lugares, os filmes da Mostravídeo do mês de novembro entregam-se a esse jogo de captura e reconstrução do mundo, oferencendo-nos inventários que parecem sujeitos apenas à lei dos movimentos, do ritmo e das formas que os animam.  

João Dumans

Curador

SESSÃO 1

HISTÓRIAS DO CINEMA

Considerado por muitos como a obra síntese do realizador Bruce Baillie, figura central no cinema experimental americano, o filme Quixote constrói um retrato épico e fragmentado da vida cultural e política dos Estados Unidos nos anos 1960. Assim como em outros trabalhos de sua curta filmografia, entre eles Mass for the Dakota Sioux (1964), Castro Street (1966) e, em menor grau, o belíssimo Valentin de las Sierras (1967), Baillie vale-se de colagens e sobreposições de imagens para criar um road movie hipnótico, em que as formas, as cores e os sons refletem as contradições políticas e sociais da América ao mesmo tempo que capturam a beleza dos homens comuns.

 quinta 3 19h30

Quixote  | Bruce Baillie, EUA, 1965, 45 min, DVD

Cavalos selvagens e um jogo de basquete fazem parte de uma viagem através do país que termina com uma manifestação anti-guerra em Manhattan. Imagens superpostas flutuam no espaço, criando um sentimento de encantamento e desorientação.

SESSÃO 2

Cinema contemporâneo I

Mais do que um documentário pessoal ou um diário filmado, o filme La Vallée Close, de Jean-Claude Rousseau, parece constituir algo como um gênero a parte, por si só indefinível, do qual apenas alguns filmes (os de Duras ou dos Straub, por exemplo) nos forneceriam algumas referências distantes. Pedaços brutos de imagens, como que extraídos da memória ou da realidade, orbitam muito lentamente em torno de uma conversa ao telefone e dos doze tópicos de uma estranha lição de geografia. Notas pessoais, citações, formações geológicas e lugares abandonados constroem aos poucos uma cartografia imaginária e circular, um mapa de reminiscências cujo sentido permanece suspenso ao longo de todo filme.

quinta 10 19h30

La Vallée Close
O Vale Fechado, Jean-Claude Rousseau, França, 1995, 140 min
A região de Fontaine-de-Vaucluse, um livro de geografia, um quadro de Giorgione, um comentário de Lucrécio por Bergson, uma forma poética de Petrarca; são os elementos que, agenciados num sistema circular, compõem o vale fechado.

SESSÃO 3

Outras narrativas

Lugares, texturas, objetos, gestos, fontes luminosas, jardins – e às vezes tudo ao mesmo tempo, como no encantador “Blah, Blah, Blah”, do austríaco Dietmar Brehm, ou no singelo “Notebook”, de Marie Menken. Entre realizadores contemporâneos (Brehm e Lowder) e clássicos do cinema de vanguarda (Brakhage, Menken, Friedrich e Cornell), o gosto pelos inventários e pelas coleções nunca deixou de alimentar os delírios do cinema experimental, essa espécie de catálogo caótico de coisas dispersas, banais e sem importância. Com exceção de “A Legend for Fountains”, de Rudolph Burckhardt e do célebre “bricoleur” Joseph Cornell (num de seus filmes onde a idéia de coleção, ironicamente, está presente de forma mais indireta) e também do clássico “A Riddle of Lumen”, de Brakhage, todos os filmes apostam menos na duração do olhar do que na velocidade das séries. Num ou noutro caso, é sempre o reordenamento promovido pelo olhar que confere sentido às coisas.

terça 29 19h30

Blah, Blah, Blah | Dietmar Brehm, AUS, 2005, 13 min, 16mm         

Um ensaio sobre a inquietude, ou sobre a insônia.

Bouquets (21, 22, 23, 24, 26, 27) | Rose Lowder, EUA, 1994/1995, 6 min, 16mm          

Filmes de um minuto reúnem paisagens e jardins de locações específicas, resultando em pequenos bouquets de imagens montados na própria câmera.

Scar Tissue | Sue Friedrich, EUA, 1979, 7′, 16mm 

Ensaio visual sobre a linguagem gestual e sobre o movimento.

Notebook | Marie Menken, EUA, 16mm, color & b/w, 10 min, 16mm                              

Pequena coleção pessoal de imagens.

The Garden of Earthly Delights | Stan Brakhage, EUA, 1981, 2 min, 16mm

Filme-colagem, inteiramente composto por restos de vegetação de uma área montanhosa. O título é uma homenagem à pintura “O jardim das delícias terrenas”, de Hieronymous Bosch.

The Riddle of Lumen | Stan Brakhage, EUA, 1972, 15 min, 16mm

Uma coleção, ou um enigma, feito a partir de diferentes formas de incidência da luz.

A Legend for Fountains | Joseph Cornell and Rudolph Burckhardt, EUA, 1957/1965, 19 min, DVD

Olhares e fragmentos dispersos do cotidiano pontuam a tarde de uma jovem, que caminha pelas ruas de uma cidade e se recolhe num quarto de hotel.

SESSÃO 4

Cinema contemporâneo II

Na última sessão do mês de novembro, a Mostravídeo Itaú Cultural realiza a estréia do filme “Alquimia da Velocidade”, de Arthur Omar, em Belo Horizonte e Curitiba. Responsável por um conjunto de obras que se tornaram referência para a arte brasileira (o longa Triste Trópico, de 1974, e a série fotográfica Antropologia da Face Gloriosa, de 1994, são só alguns deles), Omar desconstrói com frequência em seu trabalho a perspectiva factual dos acontecimentos em prol de uma relação plástica e sensorial com as imagens. No seu último filme, o artista resgata imagens de uma viagem feita por ele ao Afeganistão em 2002, e propõem, a partir do registro de um violento jogo entre cavaleiros locais, uma meditação sobre o tempo, o movimento e a velocidade. A exibição acontece em parceria com o forumdoc.bh.2011, no contexto da mostra especial “O Animal e a Câmera”.

quinta 17 19h30

Alquimia da Velocidade  |  Arthur Omar, Brasil, 2010, 55′

Fotografado em 2002, no Afeganistão, em zona de guerra, o filme apresenta cenas do violento jogo do buskashi. Nesse jogo, dois grupos de cavaleiros combatem pela posse de uma carcaça de bode decepado. As imagens foram captadas com uma câmera amadora de baixa definição, e têm seu tempo dilatado até a imobilidade: nesses instantes, a luta fica suspensa no ar. Segundo o diretor, é um filme “low tech, dedicado à simbólica dos cavalos. Afinal, é sobre o qual vem montado o apocalipse”.

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