imaginário

junho 22, 2009

À medida que a mostra avança, perdemos progessivamente o contato com o real. Ou com o presente, a realidade histórica, a esfera dos acontecimentos. As situações representadas nos vídeos do terceiro programa da mostra, Imaginário, começam a assumir a dimensão de um tempo em suspensão. Perdido entre passado e futuro?

Na perseguição que se apresenta em “La patrulla oceánica”, de Sabrina Montiel-Soto, somos remetidos a alguns dos grandes momentos do cinema surrealista – de “L’étoile de mer”, de Man Ray, a “Meshes of the afternoon” de Maya Deren. Ou ao imaginário expressionista de Fritz Lang. O patrulheiro de Sabrina Montiel-Soto guarda um parentesco com a mulher perseguida pela sombra, no filme de Maya Deren. Mas, então, alguém perguntaria: onde está o real? Como a proposta da curadoria, “localizar os videos que aproximam as instâncias do real, do falso e do imaginário”, é efetivada? 

 

La patrulla oceánica, de Sabrina Montiel-Soto

La patrulla oceánica, de Sabrina Montiel-Soto

 

 

Em “La patrulla oceánica”,  o real é visionado através dos olhos de peixe do patrulheiro, olhos que equivalem a lentes “fish-eye” – lentes fotográficas que captam imagens em angulares de 180º ou 360º e que absorvem o mundo desde uma proximidade invasiva. Por mais surrealista que seja, esse patrulheiro é fiel à sua missão número um: observar. E à número dois: perseguir. Seus olhos-lentes-fish-eye são observatórios persecutórios de uma missão: resgatar a sereia que se desgarrou do bando no mundo oceânico e diverte-se em fontes e piscinas do mundo real. 

Em “Nightmare”, o imaginário gótico de Janaina Tschäpe, também liberta as próteses surrealistas em mãos, costas, face. Talvez o filme se comporte como uma bolha que, como um sonho, pode estourar a qualquer momento e devolver o observador ao mundo real. 

 

Nightmare, de Janaina Tschäpe

Nightmare, de Janaina Tschäpe

 

 

O real é a poeira. Dele partimos e para ele voltamos.


mais mentiras

junho 17, 2009

“Se queres escrever Histórias, deves também mentir, e inventar Histórias, pois senão a tua História ficaria monótona”.  Umberto Eco

 


mentiras

junho 14, 2009
Extramission 2 – The Trilogy, Lindsay Seers, Inglaterra, 2006, 36 min

Extramission 2 – The Trilogy, Lindsay Seers, Inglaterra, 2006, 36 min

Nem adianta dar um google em Alicia Seers, Guinevere Doy, Fred Wohrnitz, Steve Kuhl, porque será virtualmente impossível confirmar a existência das personagens entrevistadas na trilogia de documentários de Lindsay Seers – “The world of Jule Eisenbud”, “Intermission” e “Extramission 2”, em apresentação no segundo programa de vídeos da mostra Observatórios, que aborda a falsidade como fator constitutivo do discurso. Não há evidências de que exista, na lista do site de busca, nenhum diretor de teatro ou artista performático que dirigiu em Liverpool uma versão de teatro de marionetes para a peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. Ou, talvez, ele esteja bem escondido – ou preservado – em algum lugar dos 4,020 itens do resultado da busca. Também não dá pra saber se aquela assustadora voz de bruxa de contos de fadas é mesmo da mãe da artista Lindsay Seers. Mas não importa. Não importa confirmar a realidade e a veracidade das declarações que ajudaram a artista a construir sua trilogia auto-biográfica que aborda um projeto conceitual-performático de transformar-se em câmera fotográfica, depois em ventríloqua e, finalmente, em um projetor de imagens. Importa que estamos diante de um trabalho que articula com brilho linguagens habitualmente distantes: o registro de performance, a ficção e as narrativas de contadores de histórias. Escutamos, contentes, as diversas teses que tentam explicar os caminhos pessoais e os processos artísticos dessa artista nascida na Mauritânia. Sabendo que, como afirma a artista paulista Tatiana Blass, também em exibição neste segundo programa, “O engano é a sorte dos contentes”.

Há muito mais engano, conspiração, ambivalência e falsidade em trabalhos de Martin Sastre, Wagner Morales, Cao Guimarães, Ivan Claudio e Janaina Tschäpe.


Real

junho 6, 2009

Dado que o cinema contemporâneo se deu conta de que é impossível capturar algo – um objeto, uma pessoa, uma paisagem – tal como ele é (ou seja, é impossível capturá-lo sem alterá-lo), trabalhamos no programa “Real” com vídeos que são relatos de experiências. O programa será apresentado quarta feira, 10, em Belo Horizonte, e na sexta feira, 19, em Vitória.

Dois trabalhos são mais afirmativamente documentais: “Mestres da gambiarra”, em que Cao Guimarães conversa com três profissionais versados na arte do improviso e da gambiara; e “Letter to Lloyd”, em que Veronica Cordeiro aproveita seu mergulho na pesquisa de Mestrado em Antropologia Visual, em Londres, para repensar questões formais e éticas presentes nas práticas etnográficas e documentais.

A experência pessoal ou subjetiva se intensifica em dois outros trabalhos em forma de vídeo-diários: “503 – Diário de viagem”, de Caetano Dias, e “Diário do sertão”, de Laura Erber. Caetano Dias constrói seu diário a partir do entrecruzamento entre o seu cotidiano e a ficção televisiva (os programas que fizeram parte de seu dia a dia quando morou em SP em residência artística). Laura Erber produz um olhar do sertão brasileiro encharcado pela leitura Guimarães Rosa. 

 

Still de Diário do sertão, de Laura Erber

Still de Diário do sertão, de Laura Erber

 

 

Finalmente, os trabalhos de Federico Lamas, “Vete al Diablo!”, e da dupla Gisela Motta e Leandro Lima , “Buraco”, são ficções que resultam de experiências vividas pelos artistas durante residências artísticas fora de seus países.


Abertura de Observatórios

junho 4, 2009

Hoje abrimos a mostra no Cine Humberto Mauro, em BH. Comecei confessando para a platéia porque não denominei a mostra “Ficções” (seria uma homenagem a J.L. Borges). Desviei para “Observatórios” pelo fato do conceito de ficção, ou de imaginário, serem frequentemente associados à idéia de irrealidade.

Definições de dicionários coincidem em reconhecer o imaginário como resultado única e exclusivamente da imaginação, algo contrário, antagônico à realidade.

Houaiss: Adj: Criado pela imaginação e que só nela tem existência; que não é real; fictício. Subst: Aquilo que pertence ao domínio da imaginação.

Michaelis: Adj: Que só existe na imaginação; que não é real; ilusório; fictício, fantástico.

No campo da filosofia,  também é comum encontrar esse tipo de dicotomia. Jean-Paul Sartre, no texto “L’imaginaire”, argumenta sobre a função “irrealizante” e “aniquiladora” da imaginação.

 Mas se deslocarmos o conceito de imaginário ao campo da criação audiovisual, essas funções e definições perdem intensidade. E isso se dá basicamente graças ao dispositivo da câmera, cuja função inicial está vinculada ao registro da realidade. No campo da criação audiovisual, a câmera é um instrumento que facilita e promove a aproximação entre o real e o imaginário. E esta é a condição que impulsionou esta mostra de vídeos.

OBSERVAR É IGUAL A INVENTAR: esse é o grande paradoxo que esses vídeos nos colocam. Mas, para fugir das dicotomias e dos paradoxos, trabalhamos aqui com três modos ou instâncias de observação do mundo. São elas: o real, o falso e o imaginário. Somadas, elas conferem  uma qualidade bastante pessoal e intransferível ao objeto representado.  

Quando apresentei os dois vídeos da noite de abertura – “En français” e “Unfinished”, uma pessoa da platéia me interrompeu, perguntando: “Mas são verdadeiras as imagens da mulher descontando um cheque falso, no filme de Sophie Calle?”

A questão foi um bom fecho para a palestra de abertura: a julgar pela qualidade “indicial” da imagem fotográfica, poderíamos jurar que sim, as imagens eram verdadeiras. Mas, a julgar pela qualidade “ficcional” de toda fotografia, ficamos na dúvida. A cena é aberta para cada espectador arriscar o seu palpite.

Amanhã, quinta feira, esses dois trabalhos serão apresentados no Cine Metrópolis, em Vitória. Boa sessão.


Observar os mecanismos de observação

junho 2, 2009

Nosso intuito, ao longo dos 24 trabalhos da mostra Observatórios, é observar os modos de observação do mundo. Cada um dos vídeos, interpretemos como uma máquina de visão.

Para abrir as sessões da mostra, assistiremos amanhã, no Palácio das Artes/ Cine Humberto Mauro, dois trabalhos que nos servem de ponteiros. Sandra Kogut, no vídeo “En français”, movimenta e faz da câmera uma experiência subjetiva. Kogut trabalha com um arquivo pessoal de imagens, que foram captadas ao longo de um ano, a partir da observação e da seleção que a artista fez de cenas de seu próprio cotidiano.

Sophie Calle, em “Unfinished”, tem as imagens captadas pelo olho anônimo das câmeras de vigilância como a origem de sua experiência audiovisual. A artista francesa toma essas imagens roubadas como o motivo de uma indagação: como lidar com a imagem de arquivo e imprimir a ela uma marca pessoal. 

Nessas duas diversas “máquinas de visão”, visualizamos o que Peter Weibel anunciou em seu ensaio sobre o “neurocinema”: “A realidade é sempre relativa ao observador”. (“La imagen inteligente: neurocinema o cinema cuántico?”, de Peter Weibel).


Ilustração de junho

junho 1, 2009

Ilustração realizada inteiramente com a utilização do software Adobe Photoshop CS2. Utiliza de técnicas como: Colagem digital e desenho a mão livre (pen tablet).

A ilustração selecionada de junho é a de Guilherme Lepca, de Curitiba.

O nome da ilustração é Movimento Coletivo, e tem como tema a variabilidade de resultados que se pode obter quando pensamos, fragmentamos e quebramos os assuntos e temas da vida. A ilustração foi realizada inteiramente com a utilização do software Adobe Photoshop CS2, e foram utilizadas técnicas como: colagem digital e desenho a mão livre (pen tablet).