O fim e o começo.

julho 29, 2009

Quem acompanhou os programas da Mostravídeo Itaú Cultural do mês de julho, pode perceber o quão variada foi a programação, apresentando os mais diferentes aspectos da cidade de Berlim. Iniciamos visualizando a paisagem urbana berlinense e suas características formais, passamos a compreender questões políticas e econômicas que determinam o desenvolvimento atual da cidade, percebemos o confronto multicultural de identidades ali presente e passamos agora, no programa 5, a investigar sua memória.

Caminhamos assim em direção ao passado, procurando encontrar hoje o que sobrou dele. Iniciamos portanto nosso programa com um procedimento arqueológico, apresentado no vídeo “Archeology” do artista dinamarquês Daniel Kupferberg. Filmando no porão de um antigo teatro, que serviu para abrigo de refugiados durante a guerra e também como moradia para trabalhadores forçados, o artista recolhe os objetos que ali encontra, tentando reconstruir de forma fictícia um passado destruído. Sem nenhum rigor científico, ao invés de realizar uma documentação do local, o artista deixa que os objetos ali encontrados busquem seus próprios movimentos, sem necessariamente narrar uma história existente. Através da técnica de slow-motion, na qual cada quadro é fotografado separadamente e depois unido em uma sequência, Daniel Kupferberg constroi um trabalho poético no qual a memória é apenas uma possibilidade.

Frame do Vídeo "Archeology" de Daniel Kupferberg

Frame do Vídeo "Archeology" de Daniel Kupferberg

O mesmo local em que Daniel Kupferberg realizou seu vídeo, serve também de inspiração para a artista austríaca Carola Schmidt em seu trabalho “Uma Pulverização em Diversas Poses”. O surreal enredo deste filme reúne três momentos diferentes: no primeiro antigas atrizes revivem como fantasmas tentando um vaga em uma audição; no segundo uma mulher limpa obsessivamente o porão, até se dissolver em seu próprio pó; e por último um homem envolto em sombras come algodão. O clima pesado e lírico é potencializado pelo poema que é lido em off. De grande força visual, os trabalhos de Carola Schmidt arrebatam o observador em todos os sentidos. Dotada de múltiplos talentos, a artista é também poeta, fotógrafa, atriz e musicista, o que torna seus trabalhos únicos. Em muitos de seus vídeos, ela convida outros artistas para realizarem performances em colaboração. Neste filme, por exemplo, ela conta com a participação da artista brasileira Síssi Fonseca e do artista alemão Rabi Georges, que também apresentou o vídeo “I fuck you” no programa 4 desta mostra.

Carola Schmidt Zerstaubung3

Síssi Fonseca em vídeo de Carola Schmidt

O conteúdo poético de Carola Schmidt, está também presente nos filmes da artista chilena Cláudia Aravena, porém de maneira distinta. Aravena, que residiu em Berlim por vários anos, apresenta na mostra o vídeo “Berlin – Been There/To Be Here”. Neste trabalho, a artista relaciona sua memória pessoal da infância no Chile às imagens captadas em Berlim em sua vida como adulta. Num trânsito entre passado e presente, entre aqui e lá, a artista nos apresenta uma memória fugidia, repleta de questionamentos sobre seu local de pertencimento. Cláudia Aravena já é bem conhecida do público brasileiro, tendo já participado de outras Mostravídeos Itaú Cultural e também do Festival Videobrasil.

Enquanto todos os vídeos anteriores tratam de memórias possíveis, que tentam ser reconstruídas pelas lembranças e sensações, o último filme da mostra, “Berlim: Sinfonia da Metrópole”, é realmente um documentário de época, filmado em 1927 pelo alemão Walther Ruttmann. Um dos primeiros cineastas a documentar Berlim, Ruttmann se destaca entre os precursores do cinema alemão. Embora o interesse deste filme seja documental, podemos perceber a interessante montagem rítmica que Ruttmann confere à  linguagem cinematográfica. Vale a pena prestar a atenção à vida diária do início do século XX, num período em que Berlim já se destacava como grande cidade européia. Traçando um paralelo com a Berlim atual que vimos através dos outros filmes, podemos perceber que muita coisa mudou, mas que também é possível identificar algumas permanências.

Trecho do filme Sinfonia da Metrópole, de Walther Ruttmann (versão sem som)

Iniciamos a mostra com o filme “Dinâmica da Metrópole”, finalizado em 2006 a partir de roteiro de 1922 de Moholy-Nagy, contemporâneo de Walther Ruttmann. Ao finalizar com “Sinfonia da Metrópole”, de Ruttmann, encerramos um ciclo, voltando ao começo e embarcando no fluxo da história. Afinal, não há princípio nem fim, tudo é apenas trânsito e transformação…

Hugo Fortes

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Encontros desencontrados!

julho 21, 2009
silviamarzall#13_2

Frame do vídeo #13(Série R) de Silvia Marzall

Uma brasileira, de família alemã, crescida na Itália, investiga os papéis sociais em Berlim.  Uma polonesa, que já viveu em São Paulo, ateia fogo no consumo desenfreado de Berlim. Uma poeta argentina buscando palavras para entender outras mulheres de Berlim. Um alemão, de família árabe, desafia as convenções no espaço público de Berlim. Uma alemã, nascida em um vilarejo, moradora de Berlim, viaja pelo mundo reconstruindo sua história. E atualmente, transita pelo Brasil.

A simples biografia dos criadores integrantes do programa 4 da Mostravídeo Itaúcultural “Berlim: trânsitos e transformações”  já seria suficiente para denunciar seu tema: identidades e confronto. De procedências e direcionamentos artísticos os mais variados, o denominador comum que une estes artistas é o fato de viverem ou terem vivido em Berlim e tratarem em seus trabalhos das questões identitárias.

A brasileira Silvia Marzall, que também apresentou um vídeo no programa 1, inicia o programa 5 com um vídeo no qual um casal usando máscaras realiza uma estranha performance sobre os telhados de um prédio em Berlim. O texto que se ouve em seu vídeo, em um português quase irreconhecível por ser pronunciado com os mais diferentes sotaques estrangeiros, trata de questões do relacionamento a dois. Os estranhamentos da convivência e a imposição dos papéis sociais refletem-se na artificialidade dos mascarados.

Um certo distanciamento e ao mesmo tempo um fascínio pelo outro é também presente no trabalho da artista  e poeta argentina Silvana Franzetti. Através da junção de  um texto poético de sua autoria e imagens de grafitagens e cartazes , a artista reflete sobre as posturas e percepções das mulheres observadas nas ruas berlinenses. Além do trabalho “Mujeres de la Calle”, exibido na mostra, é possível conferir outro videopoema da artista em http://hildamagazine.net/silvana_franzetti/ 

Já a polonesa Martyna Starosta utiliza uma performance de humor ácido para criticar o consumismo globalizado da atualidade. Em seu vídeo “Pyromanic Exercises”,  ela expõe seus pretensos poderes telepáticos com a intenção de colocar fogo nas grandes lojas de departamento e cadeias de alimentação multinacionais. O trabalho faz parte de uma série, que inclui também “Voodoo Instructions”, no qual ela perturba os consumidores através de técnicas mágicas do vudu.

A provocação performática é também o ponto de partida do artista alemão Rabi Georges. No vídeo “I fuck you” ele aparece insinuando relações sexuais com estátuas e monumentos públicos. Desafiando as convenções da arte , o artista discute ao mesmo tempo seu desejo e admiração por ela e o elitismo excludente e autoritário da cultura oficial.

Renate

Frames do vídeo "Renate" de Antje Engelmann

Já a artista alemã Antje Engelmann busca em sua própria história familiar as raízes de sua poética. No primeiro vídeo apresentado neste programa, ela canta um rap junto com seus irmãos, pisando e destruindo uma maquete de sua cidade natal, uma pequena vila no interior da Alemanha. O confronto com a cidade grande permite que a visão de seu lugar de origem se amplie e se altere, levando-a romper com os tradicionalismos provincianos. Em seu segundo filme apresentado na mostra, Antje Engelmann acompanha sua tia Renate por uma viagem ao encontro com seu passado.  Mais do que uma personagem, Renate é uma pessoa real, que abandona a família na juventude para dedicar-se à prostituição. Agora, aos 50 anos, é através de sua sobrinha artista, que Renate reencontra-se com sua história. Com uma abordagem sensível, porém sem sentimentalismos, Antje Engelmann nos apresenta a face humana de uma prostituta, levando-nos a questionar nossos próprios preconceitos e percepções.

Em meio a identidades fluidas e em constante transformação, confrontamo-nos com o outro, percebendo estranhas inquietações  e encontrando traços comuns no fundo de nós mesmos.

Hugo Fortes


Na superfície das imagens.

julho 15, 2009

Você que está lendo este blog já deve ter percebido o quanto nossa sociedade atual é tomada pelas imagens e dominada pela virtualidade. Os meios de comunicação, como a internet, a televisão, todos os impressos, além de celulares, ipods e outros meios que ainda estão por vir, envolvem-nos em um turbilhão de imagens que se tornam muitas vezes mais reais que o nosso mundo físico. As imagens artificiais da mídia e da publicidade tomam o lugar das próprias coisas e invadem a cidade contemporânea por todos os lados. É destes aspectos que tratam os dois filmes apresentados no programa 3 da Mostravídeo “Berlim: trânsitos e transformações”.

Vídeo Blue Box Berlin de Nina Hoffmann

Se esta sensação de artificialidade já é comum na maioria das metrópoles atuais, em Berlim ela ganha uma dimensão ainda maior. Por ter sido uma cidade dividida pelo muro e ter tido um de seus lados sob o domínio socialista, Berlim encarou a invasão da publicidade globalizada com um estranhamento que ainda hoje está sendo digerido pelos alemães. A acelerada reconstrução de partes da cidade após a queda do Muro de Berlim provocou uma grande surgimento de painéis publicitários massivos e cenários artificiais que servem para encobrir as obras de reconstrução. Partindo destes painéis a artista Nina Hoffmann desenvolveu seu filme Blue Box Berlim, que será apresentado primeiramente no programa 3. Neste vídeo, a artista filma diversos painéis causando uma confusão no espectador a respeito do mundo real e imaginário. No decorrer do vídeo pode-se ver uma pesquisa de opinião forjada, com perguntas absurdas, que aumenta o sentido de esvaziamento da contemporaneidade.

Trailer do Filme Miss Baghdad de Frederic Detjens

O segundo filme deste programa, de duração mais longa, é o filme Miss Baghdad de Frederic Detjens. Totalmente filmado em estúdio, o vídeo apresenta a história de uma jovem berlinense que tenta realizar um protesto contra a guerra do Iraque, porém que não é levada a sério pelos seus companheiros de geração, que estão muito mais interessados em uma vida superficial, regada a vernissages, desfiles de moda e campanhas publicitárias. O tratamento visual dado as imagens e a interpretação propositalmente exagerada dos atores conferem ao vídeo uma sensação de estranhamento, que corrobora com as idéias de falsidade da vida contemporânea e ausência de profundidade. Utilizando um humor ao mesmo tempo cínico e sutil, Frederic Detjens realiza uma crítica a sociedade atual, constatando seu esvaziamento e fixação pela imagem.

Hugo Fortes


As divisões sociais de uma cidade.

julho 7, 2009

Após termos visto a paisagem externa de Berlim e suas transformações arquitetônicas, começamos a penetrar mais fundo na alma de seus habitantes no programa 2 da Mostravídeo. Nesta semana (dias 8 e 10 de julho) veremos três filmes que tratam das questões sociais e suas percepções na atualidade e logo após a queda do muro de Berlim. Os primeiros dois filmes do programa, de autoria de Ulf Aminde, dedicam-se à investigação de determinados setores da população alemã que se encontram à margem da sociedade. Os tipos humanos enfocados nestes dois vídeos são respectivamente os punks e os desempregados berlinenses. Embora de caráter documental, o trabalho de Ulf Aminde não se resume a levantar informações objetivas da sociedade, mas propões situações inusitadas e arranjos formais inovadores ao abordar as questões sociais. No primeiro vídeo, vemos punks brincando de dança das cadeiras, numa contraposição entre a ordem pequeno-burguesa e a anarquia descontrolada vivida pelos punks. Com humor e criatividade, Ulf Aminde apresenta-nos um vídeo inesperado, fazendo-nos questionar o que é certo e o que é errado.  Já o segundo filme de Aminde retrata desempregados que se reúnem para jogar bola e beber cerveja, não necessariamente nesta ordem. Diversão e decadência se misturam nesta pungente obra de crítica social.

Frame do vídeo "Weiter" de Ulf Aminde

Frame do vídeo "Weiter" de Ulf Aminde

Logo após os vídeos de Aminde, veremos o documentário “Former East/Former West” de Shelly Silver. Construído a partir de entrevistas com os moradores de Berlim realizadas dois anos após a queda do Muro, o trabalho investiga os significados de palavras como pátria, história, mudanças, capitalismo e socialismo, entre outras, apresentando um panorama de visões e percepções sociais em pleno momento de sua transformação histórica. Confrontando expectativas, ilusões e decepções, a artista nos mostra a complexidade das relações humanas e as dificuldades da convivência com o outro, mergulhando fundo na alma e na história alemã. Usando soluções formais instigantes e criativas, tanto o vídeo de  Shelly Silver como os de Ulf Aminde, vão além do simples caráter documental, desenvolvendo uma linguagem videográfica própria e bastante dinâmica.

Hugo Fortes


Re(des)construindo Berlim!

junho 30, 2009
Na próxima quarta-feira, dia 01/07 em Belo Horizonte e na próxima 06/07 em Vitória vamos dar início à Mostravídeo Berlim: trânsitos e transformações.  Iniciaremos apresentando um pequeno panorama da paisagem urbana de Berlim e suas constantes transformações. O que norteia este programa é a idéia da construção, incluindo aí também a destruição, a desconstrução e a reconstrução. Por sua história atravessada por guerras, separações políticas, reconstruções e reunificações, a paisagem urbana de Berlim sempre exerceu fascínio sobre seus habitantes, operando como testemunha viva da história. Começamos o nosso programa com o filme Dynamik der Großtadt – ein Filmisches Experiment nach Moholy Nagy (Dinâmica da Metrópole – um experimento cinematográfico a partir de Moholy-Nagy). O filme é de grande interesse histórico, pois trata-se de uma filmagem finlizada em 2006 por um grupo de pesquisa liderado pelo Prof. Dr. Andreas Haus, da Universität der Künste Berlin, a partir do estudo de um roteiro elaborado entre 1921 e 1922 pelo artista construtivista húngaro Lásló Moholy-Nagy. Um dos nomes mais conhecidos entre os artistas que lecionaram na famosa escola de arte e design alemã Bauhaus, Moholy-Nagy é um artista completo, que atuou nas áreas de pintura, fotografia, cinema e design e representa bem o espírito de seu tempo. Muito antes de pensarmos no moderno storyboard (espécie de roteiro ilustrado que serve como orientação para a gravação das cenas de um filme), Moholy-Nagy já havia criado o seu Typophoto, uma funcional junção gráfica entre foto e tipografia que tinha como objetivo esclarecer visualmente como deveria ser desenvolvido um filme. Foi a partir de um destes Typophotos que o grupo de pesquisa liderado por Andreas Haus pode realizar este filme, que nunca chegou a ser filmado pelo próprio Moholy-Nagy. O filme mostra bem o interesse de Moholy-Nagy pela dinâmica plástica do movimento a partir das imagens da cidade movimentada.  Os autores optaram por mesclar imagens da época de Moholy-Nagy com imagens atuais, trazendo a obra para a contemporaneidade.
Dynamik der Großstadt, ein filmisches Experiment nach L. Moholy-Nagy

Dynamik der Großstadt, ein filmisches Experiment nach L. Moholy-Nagy

O segundo filme do programa, de autoria de Silvia Marzall, embora realizado em 2009, também tem relação com o passado. Através de um jogo de sombras, a artista criou uma video abstrato que se relaciona com filmes construtivistas realizados por artistas da década de 1920, entre eles o próprio Moholy-Nagy, além de Richter, Eggeling e Ruttmann, este último também presente no programa 5 da Mostravídeo. No filme de Silvia Marzall, entitulado “As sete caixas de Pandora”, a cidade é abstraída e torna-se uma constante construção e desconstrução de formas geométricas.

Reconstrução é a tônica do video Citypoem Opus 1 da artista dinamarquesa Karen Thastum. O filme documenta a reconstrução da Potsdammer Platz, um local que estava praticamente abandonado durante a existência do muro de Berlim e em poucos anos se transformou numa das maiores concentrações de prédios ultra-modernos da Europa.

A reunificação de Berlim oriental e Berlim ocidental também é tematizada de maneira sutil no vídeo “Übergang” (Transição), de minha autoria. O vídeo mostra uma viagem de metrô entre as estações Alexanderplatz (centro da antiga Berlim oriental) e Zoologischer Garten (centro da antiga Berlim ocidental). O trecho, que antes da reunificação era vetado aos moradores de Berlim, agora representa o principal eixo de tráfego da cidade.  A linguagem utilizada pelo vídeo remete às transformações em processo em Berlim. Filmado a partir dos reflexos de um vidro do metrô, o vídeo apresenta uma sobreposição de imagens que correm em direções contrárias, que lhe conferem uma atmosfera virtual e fugidia.

Outro aspecto da capital alemã é enfocado no vídeo “Noturno”, também de minha autoria. O que vemos aí é o tráfego de veículos e pessoas em uma rua cheia de neve em uma madrugada berlinense. A atmosfera melancólica e gelada é contraposta às cores quentes do vídeo e as micronarrativas realizadas pelos transeuntes.  A vida flui lentamente pelas noite escura de Berlim, enquanto a neve cai sem se dar conta.

O último filme deste programa, de autoria de Sarah Schoenfeld, retrata o abandono e a destruição de um prédio na antiga Berlim oriental. Um filme de impacto, que vale a pena ver, e sobre o qual não irei escrever mais para não estragar a surpresa de quem for assití-lo.

Vale lembrar também que na abertura da mostra, eu, Hugo Fortes e a artista alemã Antje Engelmann estaremos presentes para conversar com o público. Até lá!

Hugo Fortes


ilustração julho

junho 29, 2009

Juliana Russo

A ilustração selecionada do mês é da paulistana Juliana Russo. O cartaz com a ilustração poderá ser retirado no Cine Metrópolis (Vitória) e no Cine Humberto Mauro (BH) durante o mês de julho.

Ficha técnica: nanquim s/ papel e tratamento digital


Transitando pelas ruas de Berlim…

junho 27, 2009

A idéia da realização de uma mostra de vídeos sobre Berlim vem amadurecendo desde 2004, quando tomei contato com a produção de artistas residentes na cidade, ao mesmo tempo em que me deparei com as dinâmicas e contradições em constante movimento desta capital, onde residi por dois anos. Os espaços vazios deixados como feridas da guerra, os deslocamentos entre Berlim oriental e ocidental, com suas diferenças e particularidades, o ambiente multicultural em que a cada dia nos confrontamos com novos estilos de vida e maneiras de pensar e a história que borbulha em cada canto da cidade – tudo isto são apenas alguns aspectos que fazem de Berlim uma cidade tão interessante.

Ao pensar uma mostra sobre Berlim, não pude deixar de refletir sobre os trânsitos e transformações que ali ocorrem com tanta presença… Trânsitos de pessoas das mais variadas procedências e identidades e trânsitos entre o presente e o passado que aparecem em todas as esquinas desta metrópole. Não é por acaso que uma mostra sobre Berlim não inclui apenas artistas alemães, mas também brasileiros, dinamarqueses, americanos, austríacos, poloneses, argentinos e chilenos. Ao trafegarmos pelo metrô de Berlim, ouvimos constantemente as mais variadas línguas e ficamos tentando advinhar qual a nacionalidade daquele que se senta ao nosso lado. É na convivência no espaço público que exercitamos esta democracia, que se inicia com o estranhamento e com a curiosidade sobre o outro e deve desaguar na compreensão mútua e na colaboração criativa.  O contato com o outro, entretanto, nem sempre é fácil e gera conflitos e revisões de preconceitos.  Estas dinâmicas de identidades aparecem com toda a força nesta mostra, sobretudo nos programas 2 e 4.

Se o espaço das ruas é o local onde nos confrontamos com o outro, é também neste espaço urbano que detectamos as transformações históricas impregnadas em cada construção de Berlim. A convivência de estilos arquitetônicos, as estratégias de construção, a destruição pela guerra e abandono, as reconstruções artificiais e saudosistas que tanto marcam esta metrópole poderão ser vistas principalmente nos programas 1, 3 e 5 desta mostra. No primeiro, veremos as mudanças ocorridas na paisagem urbana e o fascínio que a vida das ruas exerce sobre os moradores da cidade, desde o início do século XX até o os dias de hoje. Já o programa 3 dedica-se a um fenômeno extremamente atual: a criação de mundos artificiais pela publicidade e pela moda,  descaracterizando os espaços urbanos tradicionais e afastando-nos de um contato mais próximo com a realidade. Para finalizar, faremos no programa 5 uma volta ao passado, vasculhando entre memórias fluidas e fugidias as marcas indeléveis das transformações.

Aos que quiserem nos acompanhar nesta viagem transformadora, desejo uma bagagem repleta de sensações surpreendentes e percepções inesperadas…

Hugo Fortes