Programa 04: Curtas Metragens

maio 26, 2009

O último programa da série Deboche e Ironia é o mais extenso, e consequentemente mais variado. Começa com The Real Zandonai, de Guilherme Marcondes, uma animação curta, mas que já dá o tom do programa. Em seguida, Meu Nome É Paulo Leminski, de Cezar Migliorin, cuja repetição do poema leva a criança gravada a revolta com os caprichos de um pai. O trabalho de Migliorin faz eco no video de Edilaine Cunha, que simula um mosh numa sala vazia. O efeito irônico da repetição em ambos os casos é similar na forma, mas com resultados diferentes. Mosh se situa no universo do rock, assim como o videoclipe da banda Rock Rockets, Rockeiros Também Amam, de Luis Carone. Aqui, a dança é o elemento cômico, coreografias dispersas e efeitos especiais nos mostram uma visão alterada sobre o universo de musicais.

Mas antes de Mosh e Rockeiros Também Amam, o programa apresenta um episódio do programa de televisão Hermes e Renato, o Black Soul Foda. Esse, é parte de uma série de esquetes chamada Tela Class, onde filmes B são dublados pela equipe de humoristas do programa. É tudo propositalmente mambembe, e, obivamente, escrachado. Como repeti algumas vezes, a reutilização da imagem para a criação de outro trabalho, acaba por questionar onde, quando e como são produzidas essas imagens e por tabela a produção audiovisual como um todo. Aliás, esse questionamento acaba por permear grande parte desta mostra, seja no longa Samba Canção, ou no filme de Gilberto Scarpa, Os Filmes que Não Fiz.

Onde Andará Petrucio Felker? de Allan Sieber é um comentário ácido sobre o universo das artes plásticas em forma de animação. Através de flashbacks, recurso muito utilizado no cinema de ficção, a história de Petrucio vai se formando, com todos os clichês deste universo desfilando um a um. O deboche do filme de Sieber, apesar de mais ácido, faz eco no filme de Daniel Rezende, que retrata o universo da política nacional através de um plano sequência (o que é curioso, considerando que o diretor é um renomado montador). Em cinco minutos desfilam traições, drogas, maracutaias, bombas e politicagem do nosso congresso nacional.

Por último, temos a Bela P… de João Marcos de Almeida. Trabalho de conclusão de curso da faculdade Cásper Líbero, o filme é uma homenagem à dupla José Antonio Garcia e Ícaro Martins, que realizou três filmes icônicos da década de 80: O Olho Mágico do Amor, Onda Nova e A Estrela Nua. Mistura de referências antigas com novas, efeitos toscos, músicas e danças fazem parte deste video curioso, anárquico, que pouco caso faz a convenções cinematográficas.

Finalizamos assim a mostra Deboche e Ironia.


Programa 03: Samba Canção

maio 22, 2009

samba

Rafael Conde é figura conhecida do circuito de produção de filmes de Belo Horizonte. Depois de vários curtas-metragens, sua estréia nos longas se deu através de um filme, que para muitos poderia ser o orçamento do um curta, ou um média, vá lá (R$ 400.000,00).

Cinema é coisa de vagabundo, diria Dona Martírio, mãe de Zé Rocha, nosso protagonista brancaleônico, em sua longa caminhada para produzir um filme. Em Samba Canção, todos os clichês sobre o cinema nacional estão escancarados, prontos para serem gozados. É a produtora obcecada pela soberania na produção de negativos, é a atriz da novela das seis, linda, que se acha, é o ator maldito do Cinema Marginal que vive de sua reputação entre jovens cineastas.

O retrato é cruel. E progressivamente vai apresentando ao espectador todas as fraturas de um sistema de produção que precisa ser urgentemente repensado. É subversivo por fazer graça, troçar da sua própria situação.

A cada corte no orçamento do filme do Zé Rocha, muda a janela do filme, que começa em “glorioso cinemascope” e termina num video digital bem comum. Em especial, a cena em que o nosso Zé ganha no bicho, e a cada número sorteado, a janela aumentando, para depois desmoronar, óbvio.

Filme que aparenta leveza para tratar de assuntos sérios, Samba Canção é um filme que surpreende o espectador com sua criatividade a toda prova, ironia férrea, e pelo visto (correndo o risco de ser ultra piegas), esperança.


Programa 02 – Sem Essa Aranha

maio 14, 2009

Sem essa, Aranha_Helena Ignez

“O sistema solar é um lixo!” repete incessantemente Helena Ignez na terceira sequência de Sem Essa Aranha (1970), enquanto o rei do Baião, Luiz Gonzaga, canta e toca num terreiro miserável, cheio de lixo, de uma favela carioca. Pastiche enlouquecido, liquidificador de referências pop e forte escracho, tanto na forma como sobre a realidade brasileira, Sem Essa Aranha talvez seja o filme mais maluco e instigante de Rogério Sganzerla, o que não é pouco.

O deboche parece mais escrachado do que n’O Bandido da Luz Vermelha (1968) e A Mulher de Todos (1969), filmes anteriores do diretor. José Louredo leva o Zé Bonitinho para um universo bêbado, reflexo da realidade versão chanchada. Ele é Aranha, homem casado com uma porção de mulheres-vedetes, cada uma em uma classe social, cada uma em seu castelo particular. O deboche é tamanho que o bigode dele ora cai, ora cola, não importa. Aliás, questões técnicas realmente não importam nesse cinema urgente, feito às pressas, no afã do momento.

Sem essa, Aranha_Luiz Gonzaga e Helena Ignez

Engolidores de fogo, contorcionistas, cobras, strip-tease, músicos, o showbiz mambembe está todo lá, entremeado por gritos, berros, frases de efeito, discursos declamados por Aranha e suas mulheres. “Fiz um pacto com o demônio, ele aparecerá twelve o’clock”. Tiradas de Zé Bonitinho se misturam ao universo de Sganzerla.

Último filme da produtora BelAir, associação de Sganzerla e Bressane que gerou 6 filmes em 6 meses (três filmes de cada diretor), “Sem Essa Aranha” teve sua filmagem terminada às pressas, com o diretor saindo do país com as latas do filme nas mãos, posteriormente reveladas nos laboratórios Éclair em Paris. Recentemente resgatado pela Mostra Cinema Marginal, de Eugênio Puppo, que percorreu as unidades do CCBB a partir de 2001.

Sem Essa Aranha é filme obrigatório. Mostra um criador no auge de sua forma, com uma turma de colaboradores afinados e afiados, uma cumplicidade rara, que só uma empreitada brancaleônica como a BelAir poderia gerar.


abertura da mostravideo de maio em Vitória

maio 14, 2009

Após a sessão de abertura da Mostravideo de Maio no Cine Metrópolis, eu e o professor da UFES, Cleber Carminatti fizemos um breve bate-papo em torno das escolhas  da curadoria.

Uma das questões levantadas por Cleber foi a inclusão de filmes numa mostra de video. Acho muito difícil, hoje em dia, ir a divisões extremas quanto ao formato de exibição audiovisual. Apesar de cada janela e cada suporte exigirem linguagens diferentes, estamos falando de imagem em movimento (na maioria das vezes acrescida de som). Com a quantidade de formatos para a captação de imagens, e a consequente utilização dessas imagens em outros formatos ainda, acho complicada essa divisão.

Dentro da curadoria, tentei incluir trabalhos de diferentes proveniências, coisas de televisão, video-arte, cinema, video, internet. A multiplicidade de formatos serve para ilustrar  como a ironia e o deboche brasileiros se manifestam na imagem em movimento. Além da multiplicidade de formatos outra ponto importante era a possibilidade de explorar os diferentes matizes de riso na platéia. Do riso amarelo, sem graça e desconfortável à risada escancarada.  É interessante poder passar por todo o espectro, de Mato Eles? a Sem Essa Aranha.

Algo importante de ressaltar, e que foi falado na noite de sexta, é como o humor é como um instantâneo da sociedade naquele momento. Um comentário cotidiano que cristaliza uma visão, um ponto de vista sobre algo muito particular ao tempo em que se vive e sobre quem faz o comentário..

Enfim, a conversa foi curta, porque onze da noite, de uma sexta feira,não há santo que aguente uma palestra muito alongada.


Os Filmes que Não Fiz

maio 7, 2009

Vídeo promocional de Os Filmes que Não Fiz (Gilberto Scarpa, Minas Gerais, 2008, 16 min, 35mm)


Alphaville 2007 d.C.

maio 7, 2009

Teaser do curta Alphaville 2007 d.C. (Paulinho Caruso, São Paulo, 2007, 16 min, 35mm)


Olá a todos! + Programa 01

maio 6, 2009

Olá a todos! vamos começar o mês de maio com o programa “Deboche e Ironia” dentro da programação da Mostravideo do Itau Cultural em Vitória e Belo Horizonte.  Na sexta acompanho a exibição do primeiro programa e em seguida teremos um debate com a platéia.  A proposta para esse programa é analisar obras relativamente recentes da produção nacional, com duas paradas em décadas anteriores, sob o viés da ironia e do deboche. Nesse primeiro programa vamos de um extremo ao outro, começamos com a ironia mais ácida, corrosiva, quase mal-educada do filme Mato Eles? de Sérgio Bianchi.

Num documentário que se utiliza de recursos ficcionais para se fazer mais pungente, Bianchi realiza uma das grandes obras do documentário nacional, onde além de apresentar ao espectador a questão dos índios da reserva de Mangueirinha no Paraná, ele questiona os limites do que é documental, do que é verdade, se isso realmente importa num fime, enfim, ele vai além dos rótulos básicos, da falsa noção de que um documentário é a verdade.

Um dos objetivos da programação é cobrir o amplo espectro do riso do espectador, do amarelo à risada escancarada. Com Bianchi, começamos com um riso amarelo, envergonhado, que poderia se tornar choro em almas mais sensíveis. É, começamos com um chute no peito mesmo. É interessante perceber que por baixo do riso se esconde uma melancolia, um questionamento sobre o que se faz, onde se vive, a sua realidade.

O segundo filme é “Alphaville 2007 D.C.” de Paulinho Caruso. Através da recriação do audio do filme Aphaville de Jean-Luc Godard, Caruso propõe uma visão  apocalíptica e ao mesmo tempo escrachada da realidade brasileira.  Aqui, além da reflexão sobre a realidade que muitas vezes o deboche e a ironia proporcionam, questões sobre o fazer cinematográfico também são levantadas. Até que ponto uma obra termina em si mesma? e a apropriação/distorção do discurso alheio, é legítima? Esse discurso pode ser aplicado à minha realidade? Alphaville 2007 D.C. tem um gosto de rebeldia juvenil, que olha o real e se pergunta se ninguém reparou nisso antes. É ingênuo e contundente em sua ingenuidade.

O último filme do programa, é explicitamente auto-irônico (falei o óbvio, né?). Da mesma maneira que Alphaville 2007 D.C. dialoga com o fazer cinematográfico, “Os filme que eu não fiz” de Gilberto Scarpa é, apesar de toda a graça da brincadeira de um pseudo-diretor contando sobre seus projetos nunca realizados, uma reflexão um tanto dura sobre a classe cinematográfica. Quantos não são os projetos que se perdem no caminho? O que é fazer cinema no Brasil, depender de verbas públicas, suplicar por financiamento, gastar anos entre a criação, aprovação e captação de verbas para um projeto, que muitas vezes, no meio do caminho morre? O riso debochado do espectador diante de tal espetáculo vai emudecendo, azedando na garganta.

O próximo programa será o longa-metragem “Sem Essa Aranha” de Rogério Sganzerla.