Coleções e Inventários #3 – Arthur Omar

novembro 23, 2011

Na última sessão do mês de novembro, a Mostravídeo Itaú Cultural realiza a estréia do filme “Alquimia da Velocidade”, de Arthur Omar, em Belo Horizonte e Curitiba. Responsável por um conjunto de obras que se tornaram referência para a arte brasileira (o longa Triste Trópico, de 1974, e a série fotográfica Antropologia da Face Gloriosa, de 1994, são só alguns deles), Omar desconstrói com frequência em seu trabalho a perspectiva factual dos acontecimentos em prol de uma relação plástica e sensorial com as imagens. No seu último filme, o artista resgata imagens de uma viagem feita por ele ao Afeganistão em 2002, e propõem, a partir do registro de um violento jogo entre cavaleiros locais, uma meditação sobre o tempo, o movimento e a velocidade. A exibição acontece em parceria com o forumdoc.bh.2011, no contexto da mostra especial “O Animal e a Câmera”.

Alquimia da Velocidade
Arthur Omar, Brasil, 2010, 55′

Fotografado em 2002, no Afeganistão, em zona de guerra, o filme apresenta cenas do violento jogo do buskashi. Nesse jogo, dois grupos de cavaleiros combatem pela posse de uma carcaça de bode decepado. As imagens foram captadas com uma câmera amadora de baixa definição, e têm seu tempo dilatado até a imobilidade: nesses instantes, a luta fica suspensa no ar. Segundo o diretor, é um filme “low tech, dedicado à simbólica dos cavalos. Afinal, é sobre o qual vem montado o apocalipse”.

Em BH quarta 23 19h30
Em Curitiba quinta 17 19h30


Coleções e inventários #2 – Menken, Cornell, Brehm, Brakhage, Friedrich, Lowder

novembro 15, 2011


Lugares, texturas, objetos, gestos, fontes luminosas, jardins – e às vezes tudo ao mesmo tempo, como no encantador “Blah, Blah, Blah”, do austríaco Dietmar Brehm, ou no singelo “Notebook”, de Marie Menken. Entre realizadores contemporâneos (Brehm e Lowder) e clássicos do cinema de vanguarda (Brakhage, Menken, Friedrich e Cornell), o gosto pelos inventários e pelas coleções nunca deixou de alimentar os delírios do cinema experimental, essa espécie de catálogo caótico de coisas dispersas, banais e sem importância. Com exceção de “A Legend for Fountains”, de Rudolph Burckhardt e do célebre “bricoleur” Joseph Cornell (num de seus filmes onde a idéia de coleção, ironicamente, está presente de forma mais indireta) e também do clássico “A Riddle of Lumen”, de Brakhage, todos os filmes apostam menos na duração do olhar do que na velocidade das séries. Num ou noutro caso, é sempre o reordenamento promovido pelo olhar que confere sentido às coisas.

BH quarta 16 19h30
Curitiba terça 29 19h30

Blah, Blah, Blah
Dietmar Brehm, AUS, 2005, 13 min, 16mm
Um ensaio sobre a inquietude, ou sobre a insônia.

Bouquets (21, 22, 23, 24, 26, 27)
Rose Lowder, EUA, 1994/1995, 6 min, 16mm
Filmes de um minuto reúnem paisagens e jardins de locações específicas, resultando em pequenos bouquets de imagens montados na própria câmera.

Scar Tissue
Sue Friedrich, EUA, 1979, 7′, 16mm
Ensaio visual sobre a linguagem gestual e sobre o movimento.

Notebook
Marie Menken, EUA, 16mm, color & b/w, 10 min, 16mm
Pequena coleção pessoal de imagens.

The Garden of Earthly Delights
Stan Brakhage, EUA, 1981, 2 min, 16mm
Filme-colagem, inteiramente composto por restos de vegetação de uma área montanhosa. O título é uma homenagem à pintura “O jardim das delícias terrenas”, de Hieronymous Bosch.

The Riddle of Lumen
Stan Brakhage, EUA, 1972, 15 min, 16mm
Uma coleção, ou um enigma, feito a partir de diferentes formas de incidência da luz.

A Legend for Fountains
Joseph Cornell and Rudolph Burckhardt, EUA, 1957/1965, 19 min, DVD

Olhares e fragmentos dispersos do cotidiano pontuam a tarde de uma jovem, que caminha pelas ruas de uma cidade e se recolhe num quarto de hotel.


Coleções e Inventários #1 – Alguns textos

novembro 8, 2011

Dossiê da revista Dérives sobre Jean-Claude Rousseau
Stéphane Bouquet sobre o cineasta em Dicionários de Cinema
Entrevista com Cyril Neyrat sobre La Vallée Close
Trecho do texto de Akasaka Daisuke sobre Rousseau em Kino Slang


Coleções e Inventários #1 – Rousseau e Baillie

novembro 7, 2011

“Cada filme é um sistema que tem sua própria lei” – a frase do realizador francês Jean-Claude Rousseau talvez seja a que melhor defina a natureza de seu La Vallée Close, realizado ao longo de mais de dez anos, a partir de visitas regulares do diretor à uma pequena vila no sul da França. O filme consiste num inventário incomum de registros documentais e reflexões pessoais, onde a presença física e sensível das coisas, assim como a atmosfera em que estão imersas, vale muito mais do que o sentido que é possível depreender delas. Pedaços de imagens, extraídos da memória ou da realidade, orbitam muito lentamente em torno de uma conversa ao telefone e dos doze tópicos de uma estranha lição de geografia. Notas pessoais, citações, paisagens naturais, formações geológicas e lugares abandonados constroem assim uma cartografia imaginária e circular, um mapa de reminiscências feito de ligações misteriosas e frágeis.

Belo Horizonte | quarta 9 19h30
Curitiba | quinta 10 19h30

La Vallée Close [O Vale Fechado]
Jean-Claude Rousseau, França, 1995, 140 min, DVD
A região de Fontaine-de-Vaucluse, um livro de geografia, um quadro de Giorgione, um comentário de Lucrécio por Bergson e uma forma poética de Petrarca são os elementos que compõem o vale fechado.

Em Curitiba, a primeira sessão acontece no dia 03 de novembro, com o filme Quixote, de Bruce Baillie.

***
Continue lendo »


Lugares do Olhar #3 e #4 – David Perlov

setembro 26, 2011


Na esteira da mostra retrospectiva “Epifanias do Cotidiano”, organizada por Ilana Feldman e realizada no Rio de Janeiro e em São Paulo em março de 2011, a Mostravídeo Itaú Cultural apresenta em BH e em Curitiba o filme Diário 1973-1983, do cineasta David Perlov. Nascido e criado no Brasil, Perlov sempre cultivou uma relação íntima com o país, que surge como uma referência freqüente nesses seus ensaios sobre o cotidiano, a família e o cenário político de Israel, onde passou a maior parte de sua vida. Para além da cronologia dos fatos históricos, contudo, a força dos filmes de Perlov reside na beleza que emprestam ao cotidiano, enredando-nos num ritmo familiar de pequenos acontecimentos e revelações autobiográficas.

Obs.:A exibição do filme Diários 1973-1983 será dividida em duas sessões: a primeira sessão do mês apresentará as partes 1, 2 e 3 (165 min) e a segunda sessão apresentará as partes 4, 5 e 6 (165 min). Ainda que a relação cronológica entre as partes seja importante, é possível ver os episódios separadamente ou acompanhar os episódios posteriores sem ter visto os que os precederam.

quarta 21 às 19h30 *
*
nesta sessão serão exibidos osDiários 1, 2 e 3

quarta 28 às 19h30 *
*
nesta sessão serão exibidos os Diários 4, 5 e 6

Diário 1973-1983
David Perlov, Israel/Inglaterra, 330 min, 1973/1983, DVD
Em maio de 1973, David Perlov compra uma câmera 16mm. O cinema comercial não o interessa mais. Durante dez anos ele filmará, dia após dia, seu cotidiano, sua família, seus amigos, seus alunos e suas viagens, sobretudo para a França e o Brasil, onde nasceu e para onde retorna 20 anos depois. Dividido em seis capítulos de 55 minutos cada, entre encontros com Nathan Zach, Claude Lanzaman, Izac Stern, Joris Ivens e Klaus Kinsky, acompanhamos os eventos dramáticos do país que Perlov escolheu como lar e que se dedicou, através de sua janela, a observar. Não se trata apenas de um diário pessoal, mas de uma obra militante por uma nova maneira de olhar o mundo, em que o privado se funde ao político, o cotidiano ao poético, e a turbulenta história de Israel se mistura à fascinante jornada pessoal do cineasta.


Lugares do olhar # 2 – Ermanno Olmi

setembro 14, 2011

Na sessão Histórias do Cinema, a Mostravídeo de setembro apresenta o segundo longa-metragem do diretor italiano Ermanno Olmi. Menos conhecido que outros diretores italianos também marcados pelo realismo do pós-guerra, Olmi sintetizou em seus filmes a preocupação social e o refinamento estético que definiram boa parte das ambições desse novo cinema. Longe de quaisquer afetações ou maneirismos formais, contudo, os filmes do diretor são marcados pela precisão e pela simplicidade calorosa com que acolhem seus personagens, construindo uma relação de intimidade e cumplicidade entre eles e o espectador. No seu segundo filme (Il Posto), Olmi constrói uma narrativa que, embora não abra mão das palavras, parece sustentar-se de forma especial num delicado jogo de gestos e, sobretudo, de olhares.

 quarta 14 às 19h30

Il Posto | O trabalho
Ermanno Olmi, Itália, 1961, 93′
Domenico (Sandro Panseri) vai a Milão para fazer um teste de emprego, onde conhece a jovem Antonietta (Loredana Detto). Aos poucos, eles deixam a serenidade da adolescência para entrar no mundo da vida adulta e do trabalho.


Lugares do Olhar #1 – Aloysio Raulino

setembro 7, 2011


Um dos mais importantes diretores de fotografia do cinema brasileiro (Braços Cruzados, Máquinas Paradas, de Roberto Gervitz e Sérgio Toledo, Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, dentre outros), Aloysio Raulino construiu uma carreira marcante também na direção de filmes, boa parte deles tematizando as condições de vida de trabalhadores, migrantes e excluídos sociais. Ainda que centrados fortemente no potencial expressivo das imagens, seus filmes não se rendem jamais a uma contemplação distanciada e desengajada do mundo. Neles, para além da força poética dos registros, a câmera deixa sempre impressa uma margem de conflito, uma área de disputa e de tensão entre aqueles que olham e aqueles que são olhados.

quarta 7 às 19h30 *

* esta sessão será seguida de debate com o realizador Aloysio Raulino, o curador João Dumans e o pesquisador de cinema Ewerton Belico.

Jardim Nova Bahia
Aloysio Raulino, 1971, Brasil, 15 min, 35mm
Depoimento prestado por Deutrudes Carlos da Rocha, baiano de 24 anos, lavador de automóveis, que vive em São Paulo. Em sua primeira parte, o depoimento de Deutrudes é alternado com aspectos de outros baianos da sua mesma condição. Na segunda parte, ele próprio empunha a câmara, exprimindo-se livremente, sem qualquer interferência do realizador.

O Tigre e a Gazela
Aloysio Raulino, 1976, Brasil, 14 min, 35mm
As fisionomias, os gestos e as falas de mendigos, pedintes, loucos e foliões que passam pelas ruas de São Paulo. Os sons e imagens são ilustrados com extratos de Frantz Fanon.

Porto de Santos
Aloysio Raulino, 1978, 19 min, 35mm
Descrição poética do Porto de Santos e seus trabalhadores – doqueiros, prostitutas, marinheiros, um capoeirista –, provavelmente envolvidos numa paralisação grevista.

Celeste
Aloysio Raulino, Brasil, 2009, 5 min, DVD
Contra um céu adverso, Celeste alça seu vôo. Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu.