Cinema e espaço urbano #3

Nesse programa, partimos de um clássico do cinema poético e documental (Rain, 1929, de Joris Ivens) e seu esforço por apreender com a câmera instanstes de extrema beleza, recortes da paisagem urbana que constroem um fio narrativo. Ivens já havia feito parte da Mostra do mês  passado (“Narrativas à Deriva”/ Abril) e uma vez mais compõe esta seleção que permite afinal refletirmos sobre a evolução do estado das coisas quando insistimos na relação entre Cinema e Cidade.

Após revermos a poesia de Ivens, nessa mesma sessão, saltamos então para vídeos realizados por artistas na primeira década deste novo século, a fim de verificarmos temáticas e formas de abordagem novas na exploração da cidade como elemento da narrativa: o espaço urbano fílmico, o hipertextual, o midiático.

Rain | Joris Ivens e Mannus Franken, Holanda, 1929, 12’

Formato: 35mm p&b, silence

Um filme sobre a chuva e a cidade. O espaço é a cidade de Amsterdam. O tempo é descrito pela chuva. A paisagem urbana feita imagem no momento de sua captura, conduzindo por si mesma, sem personagem humano, um fio narrativo e poético.

Should we never meet again| Gregg Smith, África do Sul, 2005, 24:48’

Formato: DVD from HD

Atravessando Paris, um jovem segue falando consigo mesmo ao celular, procurando um refúgio para passar a noite. Vai remontando em sua memória todo seu círculo de amigos, sem encontrar entre eles quem possa lhe atender. Ao iniciar este empreendimento, insurge uma crescente revolta e mágoa. Percorrendo o espaço público da cidade, quase como acontece num hipertexto, o personagem frequentemente acessa outros fios narrativos que o levam para um espaço fechado, numa dimensão sem barreiras e convenções sociais.

O sul-africano Gregg Smith é um multiartista que se expressa por meio da pintura, da performance e do vídeo. Um ponto em comum entre suas diferentes manisfestações artistícas é a grande importância atribuída à relação espacial. Em Should we never meet again, o artista traz o espaço urbano para o espaço da tela, e o trata não somente como ambiente da ação, mas como uma espécie de hipertexto que aglomera espaços imaginários e emocionais do protagonista. Uma experiência narrativa diferente pode ser vivenciada pelo espectador, que é lançado constantemente durante o filme a lugares diferentes. O interessante de se notar é que esses outros lugares são acionados a partir da aparição de outra telas no vídeo: pinturas que se aproximam do personagem e o transportam do espaço público ao espaço privado.

No espaço da narrativa, enfim, o artista comprime diversos outros espaços e suas linguagens, permitindo que diversas referências se condensem na tela.

Smith pretende alcançar com essa espacialidade heterogênea a intimidade como uma maneira pela qual o indivíduo navega por entre o espaço em geral. Ou, em suas próprias palavras durante uma entrevista a Eduardo de Jesus “a intimidade como uma simples proximidade ou sensibilidade com relação àquilo que está presente no espaço que ocupamos; os vetores múltiplos (tanto internos quanto externos) que nos influenciam enquanto nos movimentamos pelo espaço, e um certo sentimento de que somos cúmplices das condições em que nos encontramos”.

Mrs. Hodge’s frequent use of air freshener| Nooshin Farhid, Irã/Inglaterra, 2005, 17’

Formato: Vídeo

Neste trabalho do artista iraniano, o espaço que estrutura a forma narrativa é um bloco de apartamentos e as telas de TV e de computador. Pouco a pouco entramos na casa dos moradores do edifício, revelando o isolamento na vida contemporânea. Uma metáfora sobre a quebra da comunicação no espaço sobrecarregado pela mídia.

16 hours | Nooshin Farhid, Irã/Inglaterra, 2008, 16’

Formato: Vídeo

Uma demolição acontecerá em 16 horas. Em 16 minutos de vídeo, uma narrativa fragmentada, que rompe sempre incompleta, tal como a sociedade a que pretende se referir. Imagens de registros muito diversos. Personagens reais e fictícios, mas todos marginais. Uma paisagem urbana à margem, modificada pela prática artística do grafite. Uma paisagem urbana prestes a se modificar. A construção da extinção de um tempo, sem uso da cena.

Nooshin Farhid é vídeo-artista, nasceu em Teerã no Irã e se mudou para a Inglaterra como refugiada política depois da Revolução Islâmica.  Com seu estilo único de propor formas narrativas, Farhid elabora trabalhos que apresentam um senso anti-genealógico, onde nem sempre há um espaço e um tempo determinado, como no vídeo 16 horas que veremos nesta sessão.  Justapondo uma série de pequenas narrativas, Farhid constrói um complexo labirinto de multiplicidade. A partir do processo de colagem de imagens e sons descontextualizados ela gera novas possibilidades de significação.

Cada trabalho de Farhid é por isso único em sua construção, mas há um fio condutor que percorre toda sua trajetória artística: uma sensação de que as coisas no mundo não estão bem. Enquanto em 16 horas, Farhid denuncia com diferentes imagens justapostas o mundo em demolição e colapso, em “Mrs. Hodge’s Frequent Use of Air Freshener” expõe a impossibilidade de comunicação em um mundo mediado pelos meios de comunicação de massa.

É assim que o espaço urbano se apresenta nesses seus dois trabalhos: em um, é um espaço público apropriado, mediado pela mídia. No outro, um espaço planejado, arquitetonicamente organizado por sua funcionalidade habitacional, mas apontando para uma complexidade nas relações humanas e na presença da mídia no cotidiano.

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2 Responses to Cinema e espaço urbano #3

  1. Ambos do Nooshin Farhid foram sensacionais! Mas Mrs. Hodge’s foi especial, fiquei chocado!

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