Cinema e espaço urbano #2

Still frame do filme "No Quarto da Vanda"

Na sessão da Mostravídeo desta semana, o filme No Quarto da Vanda, do cineasta português Pedro Costa, trabalho ainda pouco assistido no Brasil. Na tela, um específico lugar urbano serve de palco para um registro direto, sem muita articulação linguística. A câmera se posiciona diante desse espaço, foco da observação, e pacientemente espera pelo desenvolvimento de uma ação, de um momento em que os sentidos se apresentem.

O recorte do espaço urbano é o contrato que permite crer numa narrativa que lentamente possa se construir sem manobras. Esse espaço é a condição que autoriza o aguardo de um momento significativo.

No Quarto da Vanda | Pedro Costa, Portugal, 2000, 170’

Formato: Mini-DV, amp. 35mm cor

Norte da cidade de Lisboa. Estamos no bairro de Fontainhas, um lugar em processo de desmaterialização, que  gradualmente é demolido por tratores. A realidade é vista através de um quarto: o quarto de Vanda, uma jovem tóxico-dependente, isolada do mundo exterior e inquieta em relação a seu futuro. Entre ficção e documentário, o filme apresenta um quadro de injustiças sociais sofridas principalmente pela população de imigrantes de Cabo Verde.

O diretor conheceu Vanda durante a realização de seu outro filme, Ossos. Nas conversas com ela, surgiu a necessidade de um outro trabalho que iria levar 2 anos de convivência, com Costa portando uma pequena câmera de vídeo digital dentro de um saco e chegando diariamente para realizar as tomadas enquanto o bairro em volta desaparecia.

A primeira vez que vi esse trabalho de Pedro Costa foi em 2003, disposto em formato de vídeo-instalação: uma projeção em dois canais no Paço das Artes, em São Paulo. O díptico provocava um adensamento do tempo, pois embora as ações ainda exigissem a espera, ao espectador era dada a possibilidade de alternar o olhar entre uma tela e outra, e ainda entre a complexidade da composição que a simultaneidade das duas imagens oferecia.  Nessas transições do olhar, intervalos eram criados e condicionavam o trabalho a mais um universo de possibilidades de significação.  A personagem estava ali, numa tela, descrevendo com gestos mínimos o seu cotidiano de angústia; na outra tela, o lugar, o espaço que a conformava. A experiência que teremos nessa noite de forma linear e por meio de um único canal (formato da concepção original do trabalho) permite absorver o espaço mais por convivência com as imagens e a narrativa, o que na instalação se dava por justaposições e sobreposições: articulações em que o espectador sutilmente participava.

A exposição tinha o título  “a respeito de Situações Reais” e a curadoria era de Catherine David e Jean-Pierre Rehm. Para o catálogo, Pedro Costa concedeu uma entrevista a Francisco Ferreira em que narra:

“Uma noite, no fim dos Ossos, eu estava exausto, sentado lá para um canto, e a Vanda veio dizer-me: ‘o cinema não pode ser só isto. Pode ser menos cansativo, mais natural. Se me filmares, simplesmente’.”

Dessa expectativa de Vanda com relação ao cinema é que surge o projeto do filme dessa noite. E o posicionamento do cineasta com relação a essa idéia em que a câmera aberta aguarda um lento desfile, leva o diretor a ancorar seu projeto num certo lugar urbano, e nele gravitacionar.

“Toda gente tem um lugar no mundo. Este é o lugar da Vanda.(…) Quer dizer, nesta sociedade horrível, é bom ter um lugar, um centro, senão somos roubados no nosso próprio interior. E eu podia começar a filmar porque encontrei um lugar, esse centro que me permitia olhar à volta quase a 360 graus, e ver os outros, os habitantes, os amigos.”

É esse posicionamento perante o espaço urbano que traz contribuições para a discussão que pretendemos no mês de maio. Para retomar a linha de filmes que reunimos, vale lembrar que abrimos a Mostravídeo deste mês com o filme Alice nas Cidades, de Wim Wenders.  Na estreita relação entre sua cinematografia e o espaço urbano, apontamos para o fato de que o próprio diretor alemão declara que toma as cidades como personagens em seus filmes.

Em entrevista que me fora concedida pelo cineasta em São Paulo, em outubro de 2008, Wenders declarou:

“Todos os meus filmes se iniciaram com o desejo de explorar um certo lugar e lugares. Cidades assim como paisagens são para mim personagens. Uma cidade pode ser uma “prima dona”, pode ser uma mulher ordinária, pode ser um trabalhador. Cidades tem personalidade e tem peculiaridades (…). Eu sempre tento transformá-las em objeto dos meus filmes como personagens”.

(Entrevista concedida para a gravação do documentário Cinecidades: paisagens em movimento, Direção de Andre Costa e Realização SESC-SP).

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