Abertura de Observatórios

Hoje abrimos a mostra no Cine Humberto Mauro, em BH. Comecei confessando para a platéia porque não denominei a mostra “Ficções” (seria uma homenagem a J.L. Borges). Desviei para “Observatórios” pelo fato do conceito de ficção, ou de imaginário, serem frequentemente associados à idéia de irrealidade.

Definições de dicionários coincidem em reconhecer o imaginário como resultado única e exclusivamente da imaginação, algo contrário, antagônico à realidade.

Houaiss: Adj: Criado pela imaginação e que só nela tem existência; que não é real; fictício. Subst: Aquilo que pertence ao domínio da imaginação.

Michaelis: Adj: Que só existe na imaginação; que não é real; ilusório; fictício, fantástico.

No campo da filosofia,  também é comum encontrar esse tipo de dicotomia. Jean-Paul Sartre, no texto “L’imaginaire”, argumenta sobre a função “irrealizante” e “aniquiladora” da imaginação.

 Mas se deslocarmos o conceito de imaginário ao campo da criação audiovisual, essas funções e definições perdem intensidade. E isso se dá basicamente graças ao dispositivo da câmera, cuja função inicial está vinculada ao registro da realidade. No campo da criação audiovisual, a câmera é um instrumento que facilita e promove a aproximação entre o real e o imaginário. E esta é a condição que impulsionou esta mostra de vídeos.

OBSERVAR É IGUAL A INVENTAR: esse é o grande paradoxo que esses vídeos nos colocam. Mas, para fugir das dicotomias e dos paradoxos, trabalhamos aqui com três modos ou instâncias de observação do mundo. São elas: o real, o falso e o imaginário. Somadas, elas conferem  uma qualidade bastante pessoal e intransferível ao objeto representado.  

Quando apresentei os dois vídeos da noite de abertura – “En français” e “Unfinished”, uma pessoa da platéia me interrompeu, perguntando: “Mas são verdadeiras as imagens da mulher descontando um cheque falso, no filme de Sophie Calle?”

A questão foi um bom fecho para a palestra de abertura: a julgar pela qualidade “indicial” da imagem fotográfica, poderíamos jurar que sim, as imagens eram verdadeiras. Mas, a julgar pela qualidade “ficcional” de toda fotografia, ficamos na dúvida. A cena é aberta para cada espectador arriscar o seu palpite.

Amanhã, quinta feira, esses dois trabalhos serão apresentados no Cine Metrópolis, em Vitória. Boa sessão.

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One Response to Abertura de Observatórios

  1. eu acho q observar é fabular, um pouco como extrair palavras de silêncios

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