Narrativas à Deriva #4 – Entrevista

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QUATRO PERGUNTAS E QUATRO RESPOSTAS
Gustavo Jahn e Melissa Dullius
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João Dumans – Os filmes de vocês transmitem uma sensação de espontaneidade e despojamento muito grande; são trabalhos que parecem muito abertos à invenção e à recriação constantes ao longo do processo de filmagem. Ao mesmo tempo o rigor na elaboração de certos aspectos narrativos e plásticos é notável, sugerindo que há também um grande esforço de pré-produção. Como vocês conciliam esses dois lados do trabalho de vocês? Como funciona o processo de concepção e de filmagem? Ele muda muito de um filme pra outro? De “Éternau” para “Triangulum”, por exemplo?

Gustavo Jahn e Melissa Dullius – A questão que nos serve como ponto de partida quando vamos fazer um filme é: como esse filme será feito? O tamanho da equipe, a técnica de captação de som e imagem, o dinheiro disponível para a produção, o tempo de rodagem, tudo isso e outras variáveis  moldam a forma final do filme. Durante a filmagem, as relações entre as pessoas envolvidas, a relação com o espaço, tudo isso cria uma atmosfera, que é o que realmente imprime.

O “Éternau” nasce de um descontentamento com a maneira que estávamos produzindo até então, no qual as funções eram completamente definidas. Era necessário que o grupo submergisse no processo do filme. E a vontade de criar uma situação assim acabou determinando a estrutura do filme, que se constrói sobre um grupo, sobre a igualdade dos amigos, como diria o Capitão Prates. A principal estratégia empregada em Éternau para criar essa situação de grupo consistiu em fundir equipe e elenco, fazendo com que o envolvimento de cada pessoa mudasse de categoria, pois não apenas faziam a imagem como também estavam nela. A cena da reunião em que todo o grupo está em cena é o momento onde a situação de produção se cristaliza em cinema. Na rodagem daquela cena todos os envolvidos estão na frente da câmera, que roda por si. É como um curto-circuito.

No “Triangulum” há de início uma diferença fundamental, pois já estávamos dirigindo em dupla. O processo acontece muito mais como um diálogo, ao invés de ser definido por uma visão individual, e faz a forma do filme tornar-se algo a ser descoberto ao invés de atingido. Quando se trabalha como uma dupla a concepção e preparação do filme ganham importância, é preciso que os dois vejam o mesmo o filme, ou ao menos a mesma estrutura. Isso faz com que por um lado a estrutura do filme seja melhor definida, e por outro que o processo seja mais aberto para incorporar elementos que surjam no decorrer. No Triangulum é justamente isso que acontece, a partir de uma estrutura definida nos abrimos para o porvir, para as situações, os personagens, os sinais que encontramos no Cairo. E o filme foi sendo moldado pela percepção de cada um e pelo diálogo sobre essas impressões individuais. No fim é impossível saber como cada cena, cada idéia, começou.

JD - “Estão faltando muitas peças em todos os lugares. Meu instinto me diz que algo muito grave aconteceu”. Fico pensando como essa frase de “Éternau”  esconde várias pistas (falsas, talvez) sobre o trabalho de vocês. Primeiro pela própria estrutura dos filmes, sempre cheias de lacunas, ruas sem saída, fundos falsos. E depois porque são filmes que sempre sugerem um certo rompimento no equilíbrio das coisas. Vocês conseguem ver um mesmo tema ligando os filmes que vocês fazem? Ou é mais um princípio, uma forma de encarar o mundo?

GJ/MD – Há na nossa experiência do cinema, ou seja, nos filmes que fazemos e na nossa maneira de ver um filme, um gosto pelas estruturas não tão completas, nem tão evidentes. Aceitamos que hajam pistas que não levem necessariamente a um lugar definido, e ao mesmo tempo sejam absolutamente indispensáveis, porque elas apontam possibilidades. Se há partes faltando, mas uma determinada sensação se desenvolve,  esses intervalos alimentam o mistério. O fascínio por um filme é o interesse ativo do espectador, que é movido e levado numa atmosfera que o move, porque também é ele quem a está movendo.

JD – A relação dos trabalhos de vocês com o cinema é muito estreita e os filmes que vocês fazem são como que contaminados por um certo espírito lúdico-cinefílico, não necessariamente na citação de filmes ou diretores específicos, mas por meio de uma referência dirigida ao cinema como um todo, aos seus tipos e gêneros clássicos, à sua capacidade de narrar aventuras, de recriar mitos, de fabular sobre a história, de dar nova vida aos mortos. Como vocês vêem essa relação com o cinema?

GJ/MD – Gostamos das imagens que se reproduzem, que se criam a partir de outras imagens. Isso não significa citação, remake, nada disso. É mais uma consciência de que quando se faz um filme se entra num rio que corre, e esse rio é a história do cinema. De certa forma sempre relacionamos nossos filmes, mais ou menos conscientemente, com pontos dessa história. O interessante é que se trata de uma história concreta, os filmes são sempre os mesmos, cada vez que são projetados. Então se pode ir e voltar nela, e descobrir algo novo lá trás e algo remoto hoje em dia.

O cinema é algo que acontece, e pode acontecer em situações muito diferentes, seja na Bolívia, de forma artesanal e explicitamente política como em “La Nación Clandestina” de Jorge Sanjinés ou seja em Montes Claros, na poesia vadia que é “Perdida” de Carlos Alberto Prates Correia.

JD – “Éternau” foi feito em Porto Alegre, “Triangulum” no Cairo e em Berlim, a série “Postcards” em quatro cidades diferentes ao redor do mundo e, se não me engano, o último filme de vocês foi rodado em Moscou. Como vocês acham que essas perambulações pelo mundo vem moldando o trabalho de vocês? O plano é continuar viajando? Ou não há plano?

GJ/MD – Há em “Éternau” uma travessia de navio, cruzam-se oceanos, vai-se ao céu e ao inferno, os personagens deliram. Filmar isso de certa forma nos liberou pra também viver isso. Caímos no mundo decididos a fundir vida e cinema, experiência e criação. Os seus filmes são aquilo que você é, foi, ou será, em um determinado momento. Em “Triangulum” fomos ao Cairo pois queríamos confrontar algo que mistificávamos. Mas o que aconteceu é que ao mesmo tempo que quisemos submergir na atmosfera local para filmar “de dentro”, não abandonamos idéias que tínhamos apriori, como voar de tapete mágico e morrer e ressucitar no deserto. É como se procurássemos desestabilizar a experiência a todo momento, afirmando o poder da representação.

Em “Postcards” acontece algo similar mas muito mais concentrado, espontâneo mesmo. Nos propomos fazer um filme com as condições existentes no local, agregando pessoas em lugares onde estamos naquele momento, em poucas horas. Se não há pessoas, filmamos sozinhos. Importante num projeto como esse é responder em cinema ao que se está passando.

Isso pode parecer muito livre, e também é, mas com o passar do tempo vamos desenvolvendo métodos e estratégias. Nosso trabalho tem hoje em dia um forte caráter investigativo, e é difícil dizer se esse processo em movimento desembocará numa forma mais definida, ou se isso já é mesmo a nossa forma.

Para mais informações sobre o trabalho de Gustavo Jahn e Melissa Dullius acesse: http://www.distruktur.com/

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