A Mostravídeo abre sua programação em 2010 com o tema “Narrativas à deriva”, exibindo na primeira sessão do mês de abril (dia 01 em Curitiba, e dia 07 em BH) o filme “Uma História do Vento”, dirigido conjuntamente por Joris Ivens e por sua mulher, Marceline Loridan, que desde a década de 60 colaborou de forma crucial com o trabalho do documentarista holandês, falecido em 1989. As sessões seguintes reúnem ainda filmes de Jem Cohen, Peter Fischli e David Weiss, Gustavo Jahn e Melissa Dullius e Joan Jonas.
Mais do que estabelecer relações diretas entre trabalhos de épocas e origens tão distintas, o tema do mês se propõe apenas a ser uma baliza conceitual, um ponto de partida para idéias e interpretações que só se afirmam no contexto particular de cada um dos filmes. É possível dizer que esse apreço por programas mais abertos e heterogêneos se aplica de forma geral ao projeto da mostra para 2010. O tema de abril introduz também para a Mostravídeo uma perspectiva que deve nortear boa parte da programação do ano, menos voltada para questões inerentes às especificidades do vídeo e da produção experimental e mais atenta às transformações que o cinema vem sofrendo no contato com outras esferas da criação artística – e que só agora, talvez, com a distância e o tempo adequados, tem se afirmado como um dado incontornável no horizonte de sua própria história .
O tema “Narrativas à deriva” esconde uma ambigüidade bastante simples revelada no pequeno texto introdutório da mostra. A deriva aqui remete tanto à idéia de personagens que viajam e deambulam pelo mundo – por sobrevivência, encantamento, tédio ou delírio – quanto à deriva da própria narrativa, levada a inventar para si, no contato com o improvável ou com o desconhecido, uma nova sensibilidade e uma nova forma. Com frequência, portanto, estaremos diante de narrativas atípicas, onde realizadores vindos de contextos distintos mobilizam os mais variados recursos estéticos para contar suas histórias.
“Uma História do Vento” seria, nesse sentido, um dos filmes mais emblemáticos de todo o programa. Na China, Ivens já havia filmado dois de seus mais importantes trabalhos: “The 400 million”, em 1938, sobre a resistência chinesa à invasão japonesa; e entre 1971 e 1975, já com Marceline Loridan, o monumental “How Yukong Moved the Mountains”, que retrata a vida cotidiana no país sob os auspícios da Revolução Cultural. Em “Uma História do Vento”, Ivens e Loridain constroem uma narrativa lúdica a partir de uma multiplicidade de registros fílmicos – imagens de arquivo, animações, registros documentais, encenações em estúdios, situações ficcionais – que acabam por constituir, na verdade, um auto-retrato do próprio cineasta, ou como já foi apontado, uma declaração de amor de Loridan, que teve uma participação incomensurável na concepção do filme, a Ivens.
Em 1965, Ivens havia partido ao sul da França numa primeira jornada para filmar o vento, da qual resultou o filme “Pour le Mistral”. Ao lado de “La Seine reencontre Paris” (1957) e “Valparaíso…”(1963), o filme compõem um dos momentos mais livres e poéticos da trajetória do cineasta. Confirma, da mesma forma, uma fascinação pela natureza nutrida por um profundo sentido político, já que sempre relacionada à sua dedicação militante ao universo do trabalho humano. Abaixo, portanto, um trecho do filme “Pour le Mistral”, em cujas imagens já se insinuam, vinte anos antes, o despojamento e a beleza do filme de 1988.
