O blog da Mostravídeo entra de férias agora em dezembro e retorna as atividades no final de março de 2010 com novidades da mostra!
Até breve!!!
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Até breve!!!
A Mostravídeo de novembro se encerra com dois filmes de horror de bordas oriundos da novíssima geração de realizadores: o curta paulista “Horror capiau” (2007), de Dimitri Kozma, e o longa brasliense ”A capital dos mortos” (2008), de Tiago Belotti.
Os dois filmes revelam cineastas que têm grande intimidade com a tradição do cinema de horror. No primeiro caso, a tradição dos filmes sobre assassinatos seriais cometidos pessoas ou grupos. No segundo, a tradição dos filmes de zumbis, que tem se tornado uma verdadeira “febre” das bordas no Brasil nos últimos anos, como se verifica em longas e médias como o capixaba “Mangue negro” (2008), de Rodrigo Aragão; o catarinense “Zombio” (1999), de Peter Baiestorf; o mineiro “Era dos mortos” (2007), de Rodrigo Brandão; e o ainda inacabado “Porto dos mortos”, do gaúcho David Pinheiro.
Em “Horror capiau”, Kozma nos apresenta um caipira cego que parece controlar as ações de um serial killer de jovens mulheres que se aproximam de uma pousada escondida no meio de uma fazenda. Em “A Capital dos Mortos”, Belotti traz a praga dos zumbis para a capital federal do Brasil e coloca um grupo de jovens em fuga em meio ao caos.
Os filmes escolhidos para o terceiro e último programa mostram a força com que o cinema de bordas participa da experiência da nova geração formada pelas universidades e pela Internet, e também acaba por revelar a consistência com que o gênero horror, raro em nossa cinematografia canônica, interessa aos espectadores e realizadores que fazem experiências às bordas do cinema brasileiro institucionalizado.
No segundo programa da Mostravídeo de novembro, foram selecionados dois filmes pretensamente de horror com características relativamente semelhantes: o capixaba “Loreno contra o espantalho assassino” (Manoel Loreno, 1989, Mantenópolis, ES) e o mineiro “A dama da lagoa” (Francisco Caldas de Abreu Jr, 1997, Pedralva, MG).
No caso de “O Espantalho”, temos algo que se parece remotamente com um slasher movie sobrenatural no qual um fantasma chega a uma cidade para se vingar daqueles que o assassinaram. Ocorre que a evidente pouca familiaridade do diretor e do elenco com os códigos cinematográficos e o repertório cultural muito particular dos envolvidos produzem um resultado absolutamente incomum, revelando uma luta constante para contar-se uma história relacionada ao gênero narrativo do horror e ao mesmo tempo dar conta de aspectos muito específicos locais.
Já “A dama da lagoa”, embora também revele as mesmas dificuldades e idiossincrasias locais, traz um realizador que parece conhecer um pouco melhor a tecnologia e a linguagem audiovisual, o que dá ao seu filme de assombração um aspecto um pouco mais linear e tradicional em relação ao gênero.
Em ambos os casos, é inegável a apropriação dos clichês midiáticos do horror por produções audiovisuais de comunidades do interior do país em busca de algum tipo de auto-representação a partir de uma articulação dos aspectos locais com aquilo que é visto (sobretudo) na programação da televisão aberta nacional.

O Assassinato da Mulher Mental, Joel Caetano
No primeiro programa da Mostravídeo de novembro, foram selecionados dois filmes muito diferentes: o amazonense “Rambú III – O rapto do Jaraqui Dourado” (Manoel Freitas, Junior Castro e Adilamar Halley, 2007) e o paulista “O assassinato da mulher mental” (Joel Caetano, 2008).
No caso de Rambú, são notórias a influência dos filmes de lutas dos anos 1970/80 e do próprio Rambo de Stallone, mas também de programas televisivos de humor mais popular como Zorra Total e Os Trapalhões. O destaque, porém, fica para a trilha musical pesquisada repleta de sucessos internacionais do rock pesado, de temas de filmes e de músicas românticas, o que reforça o diálogo com o cinema estrangeiro e imprime grande energia ao filme, além de muito humor aparentemente involuntário.
Já em “O assassinato da mulher mental”, o uso de elementos da cultura pop revela uma nova geração formada pelas histórias em quadrinhos e pelo cinema de efeitos especiais. Além disso, essa geração, que teve acesso mais fácil à Universidade, mostra um maior domínio do repertório e um conhecimento técnico mais apurado dos códigos cinematográficos, produzindo filmes mais francamente irônicos e um pouco menos anárquicos.
Vindos de gerações com capital social e cultural muito diferentes, as duas obras mostram como o espírito comunitário e paródico se aplica a diferentes situações e produz obras diversas e ao mesmo tempo representantes de um movimento comum de busca de auto-representação através de um baú de imagens e sons obtidos no seio da indústria cultural.
Os filmes de ficção feitos por realizadores amadores às bordas do cinema institucionalizado sempre constituíram uma grande aventura. Tal aventura tem se intensificado de maneira generalizada, no mundo todo, a partir do surgimento de novas tecnologias de captação, edição e distribuição de imagens e sons através da internet.
Com isso, centenas de novos produtos e diversas novas particularidades vêm se somar ao que a pesquisa sobre o cinema brasileiro de bordas vem recolhendo nos últimos três anos, suscitando dicussões interessantes sobre o recorte escolhido para cada seleção de filmes.
Na Mostravídeo de novembro, priorizaram-se obras comunitárias que dão destaque ao caráter local dos produtos audiovisuais. Nesse sentido, realizadores sem formação alguma na área do audiovisual (como Manoel Loreno e Francisco Caldas de Abreu Jr) juntam-se a realizadores com formação universitária (como Joel Caetano e Dimitri Kozma) no espírito de contar histórias próprias em parceria com os amigos mais próximos, mas sempre recorrendo a um repertório comum obtido através dos produtos midiáticos.
Não por acaso, o caráter comunitário desse tipo de produto cultural tem despertado interesse do próprio cinema mainstream brasileiro e estrangeiro, que, nos últimos anos, tem trazido filmes que tratam das realizações amadoras. Entre esses filmes, podemos destacar “Saneamento Básico”, de Jorge Furtado, e “Rebobine por favor”, de Michel Gondry. Esses dois longas recentes de grande sucesso comercial tematizaram justamente um tipo de atividade cultural que, nos últimos anos, tem sido experimentada por um número cada vez maior de pessoas, mas, ao mesmo tempo, se dispersa e perde parte de seu caráter de aventura.
Assim, filmes como “Loreno contra o espantalho assassino”, realizado em Mantenópolis/ES, ou “Rambú III – O Rapto do Jaraqui Dourado”, feito na periferia de Manaus/AM, ganham uma surpreendente força reveladora da paixão pelo cinema e da intensidade da expressão audiovisual, inclusive quando esta se dá de maneira intuitiva e espontânea.
O mundo é hoje construído sobre todo tipo de suporte, habitado por todo tipo de filme e experimentado por todo tipo de espectador. É nesse lugar que ocorre, também, o “cinema de bordas”, termo cunhado pela pesquisadora Bernadette Lyra para identificar as características específicas de produção e exibição ligadas a um universo periférico, paralelo àquele composto pelas instituições detentoras do poder dentro do emaranhado do território cinematográfico.
Nele, os filmes são feitos com um “molho” específico em que as formas populares pautadas na oralidade e na corporalidade se acham contaminadas pelo cinema de gênero canônico, já conhecidas, filtradas e repassadas pelo crivo massivo da televisão e da internet. Por força dessa predileção tão peculiar, não existe pecado nem constrangimento em pilhar, reiterar e copiar o “baú dos tesouros”.
Dessa maneira, a par de lendas e histórias regionais, o cinema de bordas se abastece, sobretudo, dos filmes policiais, de horror, ficção científica, kung fu, aventuras de histórias em quadrinhos, faroeste, comédia e toda espécie de gênero. O resultado é uma performance cinematográfica autofágica, que beira, perigosa e corajosamente, a estética trash. Cheia de sons e fúria, improviso e espetáculo, déjá vu e bom humor, artesania e imagens em movimento.
Sempre atento aos movimentos, às mutações, às confluências e às conformações da cultura, o Itaú Cultural apoia o grupo de pesquisadores do cinema de bordas, que está preocupado em introduzir coordenadas mais equilibradas e abrangentes nos estudos do cinema e do audiovisual no país, e apresenta esta mostra, que congrega um punhado de bravos realizadores brasileiros e seus filmes incríveis.
Laura Loguercio Cánepa e Gelson Santana
curadores
Alô amigos de Belo Horizonte e Vix (Vitória),
Mas alguns comentários sobre os filmes e vídeo de A Vida das Imagens, Ivana Bentes
Estarei nesta quarta, dia 21 (no Palácio das Arte em BH) e na sexta dia 23 (Cine Metrópolis em Vitória-ES) para uma conversa sobre os filmes e vídeos da mostra “A Vida das Imagens” que fiz curadoria para o Itáu Cultural. Para quem trabalha com filmes de arquivo e remix destaco vivamente os Programas 2, 3 e 4 com os filmes Passagem ao Ato; Happy End, Double Take e DIAL History, Cinema Espelho do Mundo, e Queria te ter só por uma Hora.
Ainda não falei do ” Cinema Espelho do Mundo”, da série de episódios do diretor vienense Gustav Deutsch, que faz um trabalho incrivel de levantamento de imagens do inicio do cinema em filmes de 30 minutos cada em vários episódios autônomos. “Welt Spiegel Kino” ( “World Cinema Mirror”) é uma work in progress, com materiais found footage do primeiro cinema e tem até agora 3 episódios: com materiais de Viena/Áustria, em Porto/Portugal e na Indonésia.
Vamos exibir o Episódio 1 (Episode 1: Kinematograf Theater Erdberg, Wien 1912) que mostra tomadas panorâmicas históricas pelas ruas e praças de Viena, as massas absortas nas ruas, como descreveu Walter Benjamin (na observação de Michael Loebenstein). De repente, na montagem de Deutsh, a câmera se detem sobre um desses transeuntes anônimos e cria um link para “personagens”, de filmes de ficção da época, fatos do período, fazendo associações extremamente criativas e inusitadas, apenas visuais, sem qq explicação. O material de arquivo se torna hipertextual e é “atualizado”, linkado, tornado o arquivo “vivo”.
As imagens históricas são sempre tomadas em torno de salas de cinema e as imagens mágicas dessas multidões em preto e branco, aflitas, velozes, contemplativas, frenéticas criam um estranho sentimento de nostalgia e precipitação do futuro, quando todos nós seremos também apenas imagens entre imagens.
Gustav Deutsch é um artista do video, instalações, com obras que exploram a fenomenologia do filme e a materialidade da película como suporte.

Episode 1: Kinematograf Theater Erdberg, Wien 1912
Episódio 2: Apollo Theater, Surabaya 1929
Episódio 3: Cinema São Mamede Infesta, Porto 1930
Queria te Ter Só por Uma Hora
Outro filme que me chamou atenção desde a primeira vez que vi, no Festival de Locarno de 2002 (acompanhava AO no júri), na mostra competitiva foi Queria te Ter Só por Uma Hora (Un’ora sola ti vorrei) da italiana Alina Marazzi, que acabou premiado.
Ela usa filmes de família (rolos e rolos de 16mm), fotos, cartas, diários, prontuários médicos, gravações de sons, uma miríade de materiais de arquivo e as músicas italianas (com todo um repertório e carga sentimental ( como a derramada canção que dá nome ao filem http://www.youtube.com/watch?v=hr1IPFdCeW8&feature=related)) e que conseguem de forma surpreendente reconstituir fragmentos de sentido de imapsses de uma vida. A vida (antes de Aline nascer e depois) da própria mãe da cineasta, que se suicidou em 1972, quando ela tinha 7 anos, numa família que parecia ter tudo.

Strata #
Nesse programa escolhi obras que apontam para as possibilidades estéticas das imagens digitais (Strata #1, Energia! Wingbeats) e que podem ser vistos no DVD Expérience (s) 04 (Chalet Ponti & Repérages).
Também escolhi três trabalhos brasileiros que gosto muito: Copérnico I: Paisagem com Figura, do Daniel Augusto e Eduardo Climachauska, uma demonstração de um estranho dispositivo/artefato audiovisual, Iluminai os Terreiros, do Eduardo Climachauska, Gustavo Moura e Nuno Ramos, um video/instalação todo feito com projeções de luz em espaços e paragens ermas e Hamlet no Porto , de Arthur Omar que funciona como um video intrigante sobre a precipitação do tempo no espaço (uma imagem carregada de micro-acontecimentos) e tem uma versão para instalação (ver em http://www.arthuromar.com.br/porto.html)
Passagem ao Ato
Dentro dessa onda do Remix, o video Passagem ao Ato, de Martin Arnold é uma obra prima, vejo e revejo esse trabalho com enorme prazer, tem uma inteligência visual e um ritmo/repetição/manipualção de cada frame das imagens totalmente alucinante, criando uma patologia visual para a neurose familiar. Vjing radical.
No Programa 2 – Histórias/ficções, os dois trabalhos escolhidos são extremamente originais no uso das imagens de arquivos. Happy End , de Peter Tscherkassky
é um achado, literalmene, pois as imagens do casal que se filma regularmente são found footage,
“achadas”, sem autoria, e revelam o que todos podemos imaginar, o cinema íntimo e anônimo que está sendo feito em zilhões de imagens e câmeras caseiras, e que não necessariamente virá a luz. Happy End é um desses filmes desconcertantes.
Double Take
E fechar esse programa exibindo o último longa de Johan Grimonprez, Double Take, lançado em 2009, é um privilégio. Entramos em contato com o diretor para exibir DIAL HISTORY e ele nos deu a oportunidade de lançar Double Take no Brasil, nesta mostra. Grimonprez vem pesquisando a “vida das imagens” nas suas mais diferentes formas. As imagens nos possuem, seduzem, aterrorizam, nos deus filmes. Vivemos entre imagens e somos imagens entre imagens. Nós que amamos as imagens e não sofremos de iconofobia, mas de iconofilia, encontramos nos seus filmes esse pensamento audiovisual, uma inteligência visual e sonora que nasce na edição e na construção dessa midiosfera em que as imagens nascem, crescem, se reproduzem, proliferam, se encadeiam produzindo sentidos perturbadores. E a idéia de Hitchcock-ator, personagem, em meio a memorabilia televisiva e cinematográfica americana entre anúncios de Tv e o auge da Guerra Fria, só sublinha a inteligência politica e o pensamento audiovisual sutil de Grimonprez
Vejam um trecho de Double Take, de Johan Grimonprez no You Tube http://www.youtube.com/watch?v=pCKyyb_3VX0&feature=related.
E até mais!
Double Take

Ivana Bentes
A ilustração selecionada do mês de outubro é de Gui Athayde.
dados da ilustração: nankin e ilustração digital/vetorial.